As cabeças ocas do futebol

No próximo domingo começam as emoções de mais uma disputa de título do Campeonato Catarinense, em dois jogos entre Avaí e Chapecoense. São os dois representantes do Estado na elite do futebol brasileiro e prometem partidas de excelente nível técnico, muita cordialidade, empenho e…

Peraí, peraí!

Nível técnico é possível. Empenho? Vai, quem sabe surja uma bufunfa por aí e os jogadores dos dois times se dediquem a jogar alguma coisa parecida com futebol. Mas cordialidade? Esticou-se uma corda bamba para isto.

É sabido que existe, em Santa Catarina, uma rivalidade acirrada entre Capital e Interior. Isso não é de agora. Não é deste campeonato. E nem se sabe ao certo como começou, mas está profundamente encravada na mente de todos os moradores deste Estado. Que dizer, de todos, não, mas de boa parte, sim, e de lado a lado. Ninguém é santo nesta história. Que não me apareça nenhum coroinha a se fazer de inocente.

Há constantes trocas de acusações de moradores de um lado e de outro do Estado, que não vou reproduzir aqui porque meu blog não é lata de lixo. Mas quem é da Capital e viaja para alguma cidade além do Planalto sente esta animosidade encalacrada por lá. E quem mora em outras regiões do Estado e resolve vir até o litoral é tratado como cachorro sarnento. Estou mentindo? E o futebol, é claro, esta máquina de fazer malucos, tratou de elevar esta rixa à potência máxima.

Há diversas teses levantadas ao longo do tempo tentando entender a razão desta luta tribal e insana, coisa de gente mal amada. Eu já ouvi e gostei de uma muito interessante, que fala da geografia e da história do Estado, onde, no passado, devido à precariedade das estradas e pela formação cultural de cada região, acabou por separar a todos em fronteiras mais parecidas com a antiga Cortina de Ferro do Leste Europeu. Quando as estradas foram construídas e todos puderam interagir, já havia um estranhamento e uma distância entre os povos muito grande.

O jogo deste domingo está revivendo esta animosidade estúpida em uma proporção gigante. Muito de coisas mal resolvidas do passado foi reanimado. Mas a nova inquietação diz respeito ao trágico acidente aéreo que vitimou jogadores, comissão técnica, dirigentes e jornalistas em Novembro passado e colocou não apenas a Chapecoense, mas o resto do mundo de luto. E neste aspecto, a animosidade ressuscitada das entranhas deste ódio tolo entre Capital e Interior, trouxe para o palco da vida comum, que é do que se trata o acidente, as grosserias de arquibancadas em relação aos cuidados que se teve com a instituição “chapecoense”.

A mídia, com seu marketing esdrúxulo, tratou de assumir o estado de cão sem dono que se tornou o tema Chapecoense, transformando-a em mais daquilo que não é. E as demais torcidas, principalmente daqui de Santa Catarina, adotando uma raivinha juvenil, coisa de meninos mimados, faz beicinhos e trata os “chapecoenses” com uma fúria ainda mais acentuada, talvez por ciúme ou por algum sentimento menor, vá saber.

Em Criciúma, no último jogo do returno, um bando de retardados que se dizem torcedores, daqueles que não honram as cuecas que vestem, tratou de deixar bem claro de qual lado da humanidade eles estão, e que não é o lado do bom senso. Já na Capital, há uma meia dúzia de alguns sem noção que parecem querer enveredar pelo mesmo caminho.

A situação deve ser encarada sem se confundir os atores. A Chapecoense que vem jogar com o Avaí o primeiro jogo da final é um time de futebol, que disputa o campeonato e pretende ser campeã, assim como o meu Avaí. A Chapecoense que sofreu as agruras daquele acidente, e que merece o nosso respeito, está em outra esfera de conversa, daquelas que pode nos fazer mais humanos e conscientes de nossa vulnerabilidade. É o que importa e para que todos aprendam, mídia, torcedores e jogadores.

Espera-se que, de uma vez por todas, essa fúria tribal, de selvagens acéfalos, seja encerrada, pelo bem da sensatez e das boas práticas do esporte. Aquela atividade, notavelmente conhecida, onde se deve saber perder e saber ganhar e que vença o melhor.

De grão em grão…, pode se engasgar

O Avaí terminou a fase de classificação para a final do Campeonato Catarinense de 2017, neste returno, de forma melancólica.

Sim, está classificado para a final, dirão os afoitos, pode vencer a Chapecoense, claramente natural, terá a sua camisa forte em jogo e as alternativas são imensas. E que ninguém duvide da capacidade da história do Avaí fazer a diferença, é bom ressaltar.

Então, onde estaria a melancolia?

Ora, no baile tático, e até técnico, ouso dizer, que tomou do Internacional de Lages e no que não vem jogando neste 2o. turno. Com aquele politicamente correto que nos exigem as boas práticas da vizinhança gente boa, que me desculpem os torcedores lageanos, mas não poderíamos ir para este jogo com aquela frouxidão, mesmo não valendo nada, mesmo tendo os atletas ditos titulares sendo poupados na obrigação de ter que descansar e mesmo tendo jogado com 14 reservas. Um time do Avaí, qualquer um, tem que se impor em campo aqui em Santa Catarina. Entretanto, até o time titular não tem apelo, não tem carisma, carece de sustância, de algo que nos faça ir aos confins do fim do mundo para dar-lhe apoio e torcer desbragadamente diante de tanta ruindade. É duro assumir isso, mas é real.

Lamento as opiniões contrárias e discordo de todas, mas o cenário está terrível, até porque também não conseguimos vencer aquele time medíocre do Figueirense e levamos um toco histórico do glorioso e sensacional Almirante Barroso no outrora caldeirão da Ressacada.

Não me preocupo com resultados. Os resultados de campo são frutos de circunstâncias, que muitas vezes não refletem campanhas. Se fosse me basear em placares e escores para defender o meu Avaí, já teria deixado de torcer para ele há muito tempo. A história nos mostra muito mais fracassos que sucessos, isto é fato. Em 94 anos de vida, temos apenas 16 títulos estaduais, um título de terceira divisão do Brasileiro, um acesso magistral à série A do Brasileiro e outros com brilho mais ou menos apagados, ainda que valiosos.

Não se deve menosprezar isto, pelo contrário, deve-se exultar, mas neste meio do caminho tivemos fases de longas agruras. Portanto, não é por este resultado que me incomodo, repito. Eu insisto é que o Avaí Futebol Clube entrou, neste momento, numa fase de sua vida de ter que se exigir mais alguma coisa em nosso campeonato. E, também, deixar de ser um singelo participante de campeonato nacional e ambicionar mais coisas à frente, embora ainda tenhamos sofrido reveses humilhantes na competição local.

Se alguém acha que é natural jogar partidas medíocres em nosso quintal, com a velha máxima de baixos investimentos para se pensar em ampliar a abertura do cofre lá na frente, sinto muito, eu não penso assim, não penso pequeno. É aí que está o erro estratégico da diretoria do clube. A faca, o queijo e a taboinha de frios estão à mão e eles estão preocupados em posar para fotos. Estão querendo fazer a política do grão em grão para encher a pança do frango aos pouquinhos, devagar e sempre, e se penteando como pavões engalanados.

É bom lembrar-se de nossas últimas campanhas no Catarinense, que foram vergonhosas para a história do clube que se diz grande por aqui (e apenas por aqui!), e que se repetiram muito bem no que foi este segundo turno. Naqueles dias era tudo culpa do Amado, aquele, não tem?! Pois, baseado nesta campanha, a atual, poderíamos estar, agora, com o substituto do Amado, louvado até poucos dias como a última bolacha do pacote, lamentando um rebaixamento, se tivéssemos jogado assim também no 1º. turno.

Claro que o “SE” não joga, a gente sabe muito bem, e a bola tem que ser jogada pra frente, assim como o lambari é pescado. Mas minha pulga atrás da orelha ainda não errou neste ano. Tomara que eu me arrepende de ter dito tudo isto.

O monstrinho da Trol

A Trol®, para quem não sabe, foi uma importante empresa brasileira que fabricava brinquedos, além de outros produtos, e que faliu na década de 1990. Por serem muito populares, seus produtos eram adquiridos em grande quantidade, mas embora fossem bonitos e agradáveis, a sua durabilidade era pequena e frequentemente quebravam devido ao excesso de uso. Normalmente, as crianças que ganhavam o brinquedo no Natal, não o utilizavam na época do Dia das Crianças. Ou vice-e-versa.

É mais ou menos o que ocorre com este time do Avaí. Um brinquedo que foi se desmanchando pelo caminho, a ponto de suas peças, antes bem arranjadas e bonitas, não se encaixarem mais. É de vida curta. Um monstrinho que hoje não intimida mais ninguém.

Eu não assisti à partida jogada contra o Almirante Barroso neste sábado. Tive um compromisso familiar e não pude conferir o show de horrores atestado pelos que na Ressacada compareceram. Porém, pelos relatos, diz-se que o time jogou sua pior partida na temporada.

Bom, embora não tenha sido testemunha, ouso discordar. Este time tem jogado mal em quase todas as partidas da atual temporada. Para falar a verdade, o único jogo que me encheu os olhos foi aquela partida jogada contra a Chapecoense, na Ressacada, ainda pelo primeiro turno. Foram 3 a 0 jogados com maestria e qualidade, como deve ser um time de futebol, onde se viu um grupo com vontade, esmero e técnica apurados. Mas pode ter sido preguiça da Chapecoense também, não se pode saber.

O fato é que, sem ser o dono da cocada preta e jamais querer ser a última bolacha do pacote, tampouco adotar a vaidade dos dirigentes avaianos, tudo o que está ocorrendo eu já previa. Nada disso aí é novidade. Esta série de fracassos era perfeitamente natural, face ao conjunto inferior deste time e cuja diretoria, mais interessada com maquiagens midiáticas, pouco ou nada faz, por causa do tal discurso medíocre de “não fazer aventuras”.

E nem adianta botar culpas em árbitros maldosos, arranjos da Federação para ajudar seu time preferido, na mídia pronta para dar a taça para a Chapecoense, nestas coisas que são bengalas existenciais. Não adianta botar culpa em um goleiro, naquele zagueiro que se esforça, num meio de campo que tenta, mas não tem capacidade técnica. Os jogadores são estes aí mesmos e fazem o que podem, alguns, é claro, se esforçando mais por vaidades do que por empenho para o jogo. Mas nada disso deve ser tomado como motivos para o fracasso. Temos que assumir nossas culpas, que são outras e mais profundas, a síndrome de mediocridade.

Lembro que nas redes sociais há infelizes que acham que eu torço contra. Talvez porque sequer me conheçam, quanto mais imaginar que eu algum dia tenha desejado algo ruim para meu clube de coração. O que observo é, apenas, a realidade sem paixões. E não está difícil de se prever mais desgraças que virão pela frente, a continuar esta inércia instalada nas salas acarpetadas da Ressacada. Dormiram em cima do saco do acesso e acham que os outros não acordaram.

Aliás, vida longa a quem será vice-campeão catarinense sem fazer esforço algum para querer ser algo melhor. Como o Avaí Futebol Clube, por exemplo, um clube que não tem ambição, não quer ir mais longe além de participar dos campeonatos, não tem atletas com poder de decisão, e que apenas quer continuar jogando os campeonatos sem agregar algo a mais em sua vida.

Então, que assim seja.

Um clube sem aventuras

É importante que fique claro que o Avaí não empatou o jogo contra o Figueirense, ou deixou de ganhar, por causa do pênalti não marcado. Pênalti que existiu, é claro, e é bom salientar isto muitas vezes. O Avaí simplesmente jogou mal, e ainda foi incompetente quando teve alguma lucidez na partida. Aliás, estou sendo repetitivo e circular nisto: temos um time fraco, que está aí muito mais por esforço do que por virtudes técnicas. E que não faz aventuras, não tem ambição, não enche os olhos de sangue.

Sim, eu sei, dirão que chegamos à Série A jogando com garra e denodo e algumas vezes desta maneira, mal e porcamente fazendo três pontinhos no erro dos outros. Dirão também que conquistamos o primeiro turno do catarinense com um pé nas costas e dando bailes, mesmo com este time ruim.

Ocorre que no primeiro caso o time se irmanou e decidiu, na força e na garra, obter o acesso. E teve “uns bastidores”. que poucos sabem. Daquelas coisas que só boleiros fazem e contra uma série de prognósticos. E do título do primeiro turno catarinense, qualquer entendedor do campeonato do nosso quintal sabe que times bem treinados, grandes ou não, voam nessa etapa. Obviamente que o Avaí não estava um primor de “bem treinado”, mas manteve a estrutura que o levou ao segundo lugar da série B de 2016, algo que faz uma diferença enorme num campeonato que ainda está se remontando.

Entretanto, como eu disse em outras oportunidades, bastou os outros times se aprumarem que a coisa se complicou e mostrou-nos a realidade: apenas raça e esforço não dão título a ninguém. Claro que enchem os olhos, chamam o brio da torcida, vendem camisas de qualquer cor, mas o grosso do campeonato é decidido com uma boa dose de regularidade técnica e solidez tática. O resto é perfumaria.

Vamos decidir, de acordo com o trote dos cavalinhos na carruagem, com a Chapecoense e na casa deles. E tudo leva a crer que eles serão campeões. Não, não sou pessimista, corneteiro e muito menos Mão Dinah, tampouco torço contra ou faço fogo amigo. Mas acompanho o futebol sem essa paixão desenfreada. Num campeonato de pontos corridos e de tiro curto, perder pontos decide a sua vida lá na frente. Perdemos pontos preciosos com essa bobagem de poupar jogadores e com essa mania de colocar o Marquinhos pra bater pênaltis. Ou seja, não se pode piscar os olhos quando se tem um time limitado para administrar.

“Ah, então tu não torces desbragadamente pelo Avaí?”. Torço. Mas com os pés no chão. O único momento em minha vida de torcedor no qual relaxei, quando as emoções sobrepujaram a razão, foi naquele acesso de 2008, quando aquele time, aí, sim, sem ser um Barcelona, jogava bola e com muita técnica e táticas bem empregadas. Foi um momento raro, onde o coração palpitou mais forte do que deveria.

E só.

De resto, o futebol é simples de se ver.

Hoje, como tenho dito, estamos nos mantendo no campeonato e vamos continuar assim, pensando pequeno e sem fazer aventuras. Nossos dirigentes estão mergulhados em vaidades e posam para as câmeras como pavões inveterados. De futebol, nada!

Estamos na iminência de jogar uma série A, de um dos campeonatos mais encardidos do mundo, e vamos com medo. “O importante é não cair”, pensam aqueles que adoram jogar futebol de botão. Com aquela postura de se recuar e não tomar gols. De contratar jogadores baratos, mas que suam uma barbaridade, afinal, não podemos fazer aventuras. Vamos então torcer para que a cada partida um juiz nos pegue de jeito e não marque os pênaltis existentes a nosso favor. Ou anule aquele gol salvador e com o qual poderíamos ter vencido os palmeiras, flamengos e corinthians da vida. Aí teremos desculpas para nos consolar diante da incompetência e, quem sabe, terminar lá entre os últimos colocados, mas com uma dignidade absurda de ter jogado com raça. Não é bonito isso?

Então, ao final do ano o presidente poderá dizer: “viu, não fizemos aventuras, gastamos o suficiente para não fazer dívidas. É um belo exemplo de gestão, não acham?”. E que siga a valsa.

O arrozinho de todo dia

No que se refere a time brigador, raçudo, que joga até os últimos instantes, sim, este time do Avaí dá de 10 a 0 naqueles que desistem antes do apito final. Repete outros tantos que, ao longo da história, fundaram uma espécie de confraria dos fortes nos domínios do Leão da Ilha, como times que sujam o calção e suam a camisa e seus torcedores lotam clínicas de cardiologia. Isso não se nega. A propósito, a velha frase “jogou mal, mas venceu” é entoada como um hino glorioso pela torcida, como forma de expurgar suas agruras.

Mas, parece que é só isso.

Pois é! Já vi muitos times do Avaí, muitos mesmo, que jogavam neste estilo. É fantástico quando assumem as nossas tradições e se impõem nos campeonatos. Causam o dissabor nos adversários de nunca desistir, de jogar pela última bola, de usar todo o seu esforço em busca de um resultado. Dignificam nossas tradições e valorizam as glórias e as conquistas.

Porém, um time de futebol que dependa apenas do esforço físico, da dedicação e dos suores, sem uma técnica que o acompanhe, sem um futebol mais vistoso, vai até a metade. Conquista um bom pedaço do campeonato, injeta a famosa gordura, que até pode fazê-lo vitorioso, contando também com uma boa dose de sorte, mas por ser limitado não gera confiança. Ou perde na fase mais importante, além de oscilar nos campeonatos importantes.

O valor dado ao time mais fraco, mas esforçado, é imenso. A satisfação de vê-lo levantado uma taça, vencendo jogos encardidos, ultrapassando fases é sem comparação. A história é duplamente valorizada por um time assim. Todavia, dessa forma, jamais poderá cochilar. Que nunca pense em querer jogar com soberba e arrogância.

Times assim só tem um caminho: vencer. Sempre. Porque, se começarem a fracassar, a antes generosidade da torcida para com os raçudos se tornará uma amarga descarga de impropérios, malquereres e inconformismos, para dizer o mínimo.

Como já mencionei em outras postagens, que este time do Avaí não pense que é um timaço, um Barcelona abduzido. Jamais. O feijãozinho com arroz, com tempero dos fortes, já o qualifica como candidato ao título. É o que basta.

Com o enredo na ponta da língua

Quando a gente vê um sujeito como Célio Amorim apitando um jogo, logo pensa: o futebol tem que ser zerado e reinventado. Foi a frase que usei, nas redes sociais (porque já sabia o que viria pela frente), assim que se iniciou a partida entre Avaí e Joinville, válida pelo estadual mais fácil de ganhar, e que o Avaí complicou.

Célio Amorim não é árbitro de futebol. Ele é um ator convidado pela ópera-bufa que é a Federação Catarinense de Futebol para transformar um jogo que já é encardido numa autêntica demonstração da desfaçatez, amadorismo, cinismo e mediocridade humanos. Com toda a certeza, jogos onde ele apita viram comédias com enredo trágico.

Mas eu não vou perder meu tempo falando de Célio Amorim. E nem dar a velha desculpa de termos sido prejudicados por causa dele. A falta de condições deste apitador para conduzir uma partida é ampliada devido à ruindade dos times, aí sim. E o Avaí segue naturalmente o enredo dos times limitados que se complicam.

Acho que já estamos cansados de ano após ano louvarmos uma partida jogada pelo Avaí onde tenha que prevalecer a raça e a determinação ao invés de um bom futebol. Quantas e quantas temporadas nos contentamos em sair do estádio com um jogo ganhado nos acréscimos, no sufoco, com bolas espirradas, com vontade acima da técnica, com transpiração em lugar da inspiração, ao invés do simples e singelo jogo jogado no toque de bola, nas táticas bem aplicadas, nos lances virtuosos. Cansou desta máxima de “fazermos coza”. Chega de rezar para virgens e santos de qualquer naipe para que saia um golzinho e a gente enfrente a fila mais leves.

Não, não quero torcer para o Barcelona, como dez dentre dez abobados apontam os dedos quando pedimos um pouquinho só mais de toque de bola. Eu quero sair de um estádio sem ter que botar culpa em árbitros omissos e fracassados quando meu time não rende.

Durante várias diretorias passadas pela Ressacada a desculpa que se ouve é que o clube não pode fazer aventuras, não pode gastar mais do que tem para fazer um bom time. Como se jogar com coitados limitados e tendo que manter alguns cones em campo não fosse uma aventura das mais cruéis. E, pior, se acaba gastando mais para repor jogadores que se contundem ou para acertar o ponto daquele jogador ruim que foi contratado para apenas ocupar um espaço.

Vencemos um jogo contra um fraquíssimo Joinville de forma dramática num campeonato de muitas nulidades. Devemos enfrentar um time na final, o qual toda a mídia nacional e toda a torcida mundial querem ver campeão. Aliás, se ninguém percebeu, o campeonato foi preparado para a Chapecoense ser campeã, não de maneira ilícita, claro, mas por uma boa bagagem de marketing. O enredo está sendo seguido a contento, parágrafo por parágrafo, e tendo o Avaí como belo coadjuvante.

Como ficou muito explícito nesta partida, o Avaí, hoje, tem apenas onze jogadores razoáveis. E só! Isso não me dá esperanças alguma, e sinto muito se alguém se ofende e acha que estou torcendo contra. Como disse, não quero um super-time do Avaí. mas não quero mais desculpas. Não quero mais lamentos por falta de dinheiro ou por sermos prejudicados pela mídia ou por árbitros fantoches e medíocres. Quero apenas não ter mais que sair do estádio mais cansado do que os jogadores, por torcer desbragadamente para quem já não tem mais forças para uma decisão. O Avaí, como instituição, precisa crescer e sair deste lugar-comum.

A necessidade da evolução

Uma das frases mais comuns usadas nesta biblioteca de frases de efeito existente no futebol é a tal “o time está evoluindo”. Ela descreve aquela situação de um time de futebol que, se antes era desarrumado e inconsistente, vai agora se tornando algo, pelo menos, apreciável. É aquele time que se vê com possibilidades de chegar a algum lugar, quando antes era um amontoado de nabas.

Acho que até já comentei algo assim por aqui, uma vez que é um assunto recorrente. Na minha ótica de biólogo, por exemplo, evolução não é melhoria, mas mudanças de características que levam alguma espécie de um processo A para B. Quando saímos da ciência e vamos para o senso comum (e o futebol é preenchido até o talo disso), admitimos que uma evolução é aquela bela gabaritada nos cornos de qualquer coisa, seja desde a faxina no estádio até quando o nosso querido e amado time ganha e dá espetáculo. Qualquer time.

E todo o entorno festeja, porque não se trata apenas do time para o qual torcemos.

Mas, e quando perde? Ou ainda, quando vemos cansaço e má vontade num grupo? No âmbito da competição, principalmente a do futebol, somos cruéis na derrota. Seja qual for. Isto é fato! Mente e posa de hipócrita quem pensa ao contrário. Mas uma derrota não é pura e simplesmente o resultado negativo no placar e a não marcação de pontos positivos. É o contrário da evolução, daquele upgrade tão festejado.

Agora, e por que a delicadeza em certas situações? Por que muitos ainda esperam e não conseguem se indignar?

Se ao falarmos de algo competitivo, e apenas observarmos derrotas ou uma tendência ao fracasso, a razão de se contemporizar demonstra ser a simples observação do jogo e nada mais. Não é pensado mais à frente, mas se adota a postura de inércia, do “não é bom falar pra não tumultuar”.

E, é importante lembrar, não estamos tratando de uma gincana de colégio, aquela que gera bons suores e cansaços na gurizada depois das disputas, que ao final vê-se cada um indo para casa, vencendo ou perdendo, e no dia seguinte o mundo continua sendo o mesmo. Estamos falando de algo que vai além do polígono retangular dentro de um estádio.

Um time fracassado ou em decadência leva até o vendedor de pastéis a pensar em outra atividade, porque aquela já lhe dá prejuízos. Uma comunidade inteira abraça outras causas e deixa o “esporte das multidões” na gaveta. Não é mais interessante.

Por esta razão, não incomodar-se com derrotas, com tendência ao fracasso, ou com a manutenção do projeto linear, aquele que se convencionou chamar de “sem aventuras”, é pensar pequeno. É não se atentar para o entorno, para a coletividade. E se vale o senso comum, é não evoluir e ficar fadado ao marasmo.