Um clube sem aventuras

É importante que fique claro que o Avaí não empatou o jogo contra o Figueirense, ou deixou de ganhar, por causa do pênalti não marcado. Pênalti que existiu, é claro, e é bom salientar isto muitas vezes. O Avaí simplesmente jogou mal, e ainda foi incompetente quando teve alguma lucidez na partida. Aliás, estou sendo repetitivo e circular nisto: temos um time fraco, que está aí muito mais por esforço do que por virtudes técnicas. E que não faz aventuras, não tem ambição, não enche os olhos de sangue.

Sim, eu sei, dirão que chegamos à Série A jogando com garra e denodo e algumas vezes desta maneira, mal e porcamente fazendo três pontinhos no erro dos outros. Dirão também que conquistamos o primeiro turno do catarinense com um pé nas costas e dando bailes, mesmo com este time ruim.

Ocorre que no primeiro caso o time se irmanou e decidiu, na força e na garra, obter o acesso. E teve “uns bastidores”. que poucos sabem. Daquelas coisas que só boleiros fazem e contra uma série de prognósticos. E do título do primeiro turno catarinense, qualquer entendedor do campeonato do nosso quintal sabe que times bem treinados, grandes ou não, voam nessa etapa. Obviamente que o Avaí não estava um primor de “bem treinado”, mas manteve a estrutura que o levou ao segundo lugar da série B de 2016, algo que faz uma diferença enorme num campeonato que ainda está se remontando.

Entretanto, como eu disse em outras oportunidades, bastou os outros times se aprumarem que a coisa se complicou e mostrou-nos a realidade: apenas raça e esforço não dão título a ninguém. Claro que enchem os olhos, chamam o brio da torcida, vendem camisas de qualquer cor, mas o grosso do campeonato é decidido com uma boa dose de regularidade técnica e solidez tática. O resto é perfumaria.

Vamos decidir, de acordo com o trote dos cavalinhos na carruagem, com a Chapecoense e na casa deles. E tudo leva a crer que eles serão campeões. Não, não sou pessimista, corneteiro e muito menos Mão Dinah, tampouco torço contra ou faço fogo amigo. Mas acompanho o futebol sem essa paixão desenfreada. Num campeonato de pontos corridos e de tiro curto, perder pontos decide a sua vida lá na frente. Perdemos pontos preciosos com essa bobagem de poupar jogadores e com essa mania de colocar o Marquinhos pra bater pênaltis. Ou seja, não se pode piscar os olhos quando se tem um time limitado para administrar.

“Ah, então tu não torces desbragadamente pelo Avaí?”. Torço. Mas com os pés no chão. O único momento em minha vida de torcedor no qual relaxei, quando as emoções sobrepujaram a razão, foi naquele acesso de 2008, quando aquele time, aí, sim, sem ser um Barcelona, jogava bola e com muita técnica e táticas bem empregadas. Foi um momento raro, onde o coração palpitou mais forte do que deveria.

E só.

De resto, o futebol é simples de se ver.

Hoje, como tenho dito, estamos nos mantendo no campeonato e vamos continuar assim, pensando pequeno e sem fazer aventuras. Nossos dirigentes estão mergulhados em vaidades e posam para as câmeras como pavões inveterados. De futebol, nada!

Estamos na iminência de jogar uma série A, de um dos campeonatos mais encardidos do mundo, e vamos com medo. “O importante é não cair”, pensam aqueles que adoram jogar futebol de botão. Com aquela postura de se recuar e não tomar gols. De contratar jogadores baratos, mas que suam uma barbaridade, afinal, não podemos fazer aventuras. Vamos então torcer para que a cada partida um juiz nos pegue de jeito e não marque os pênaltis existentes a nosso favor. Ou anule aquele gol salvador e com o qual poderíamos ter vencido os palmeiras, flamengos e corinthians da vida. Aí teremos desculpas para nos consolar diante da incompetência e, quem sabe, terminar lá entre os últimos colocados, mas com uma dignidade absurda de ter jogado com raça. Não é bonito isso?

Então, ao final do ano o presidente poderá dizer: “viu, não fizemos aventuras, gastamos o suficiente para não fazer dívidas. É um belo exemplo de gestão, não acham?”. E que siga a valsa.

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2 comentários sobre “Um clube sem aventuras

  1. Agradeço por compartilhares mais um bom texto, camarada.
    Sempre com boas provocações.
    Sobre o “Marquinhos”, utilizá-lo contando com a eventual
    possibilidade de decidir o resultado de uma partida,
    é como um sujeito sair por aí carregando uma lista telefônica
    debaixo do braço, contando com a possibilidade de
    precisar do número do telefone de alguém. É desejar que tenhamos
    no futuro um excelente passado.

    Abraço

    Carlos Cidade

    Curtido por 1 pessoa

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