Num canto verde do coração

Confesso que não tenho ânimo para escrever coisas sobre futebol e muito menos ter encontrado coragem para escrever algo sobre esta tragédia da Chapecoense. A cada momento que ponho os dedos no teclado uma lágrima corre, um nó na garganta não desce e a respiração fica alterada. Aí largo e vou me recompor. A frase “um sonho foi interrompido” é a que bate frequentemente na consciência. E a cada notícia, a cada depoimento, a cada homenagem, a cada reflexão, uma angustia, uma tristeza e uma agonia me arrebata.

Eu aprendi a gostar da Chape quando comecei a admirar a gestão deles, lá em 2013. Era dezembro daquele ano, estava em Modelo, uma cidadezinha simpática próxima a Chapecó e estávamos num evento festivo da cidade. Numa mesa onde nos sentamos, chegou casualmente um dirigente da Chapecoense e mais alguns torcedores deles. Eu estava com a camisa do Avaí, começamos a conversar sobre futebol, eles haviam acabado de subir para a Série A do brasileirão e fiz a pergunta natural: “ vocês vão até onde? Acham que a Chape cai no próximo ano?” O dirigente me olhou seriamente e respondeu, no ato: “mas, para, de forma alguma. Vamos ficar por um bom tempo na Série A. Pode escrever isso aí!”. Não desdenhei, é claro, porque minha educação não permite isso, mas meu ceticismo bateu.

Porém, depois de digerir aquilo por outros dias, acabei admitindo que ele falava muito sério.

Apesar de aquela afirmação parecer pretensiosa demais para um clube de futebol pequeno e humilde, os resultados mostraram que ele estava certo. A gestão responsável, o empenho, a dedicação e o carinho com que eles trataram de futebol nestes últimos anos deu-me a certeza do que eles queriam. E que não era pouco.

Há quem diga, obviamente movido por aquele sentimento de torcedor de arquibancada e que diz saber mais de futebol que os demais, aqueles, é claro, que torcem para os clubes rivais da Chapecoense, que eles são ajudados pela prefeitura, que a Arena Condá é municipal e que empresários põem dinheiro para eles poderem crescer. E eu fico pensando que este sentimento é pura dor de cotovelo e nem vou discutir isso. É coisa de torcedor de arquibancada mesmo.

A Chapecoense foi crescendo e se mantendo. Fazendo tudo como deve no campo da gestão e tudo o que é permitido no campo de futebol. Eles foram tomando espaço e obtendo posições. Na vida e na bola. Em Santa Catarina, deixou de ser um singelo participante do estadual e passou a protagonista. No cenário nacional, de um time humilde de um Estado periférico, virou admiração e case de administração esportiva.

E o resultado, para aqueles que trabalham sério e com dedicação, naturalmente é o topo. O anonimato é deixado para os preguiçosos e oportunistas, mas a glória sempre será dada àqueles que a merecem. Foi o que houve com a Chapecoense. Chegou à glória e ao estrelato. Virou protagonista. Virou a queridinha do Brasil. Poderia ser campeã das Américas. Mas…

Ocorre que o acidente interrompeu os sonhos. Vidas jovens, esperançosas e desafiadoras se foram. Projetos e metas terminaram ali, naquele morro próximo a Medellín. Uma gota a mais de combustível, uma gananciazinha a menos e a história seria outra. A carreira de jogadores, de jornalistas, de dirigentes, de funcionários da empresa de aviação se encerrou numa noite fatal.

A dor da perda ainda pulsa e machuca.

Entretanto, a queridinha do Brasil, a protagonista da sulamericana, a cobiçada em gestão esportiva, aquela que poderia ser campeã das Américas desmanchou-se numa fatalidade e renasceu como heroína. No palco das ilusões que é o futebol, a Chapecoense, seus jogadores e aficionados brilham agora como atores principais. São reverenciados, são exaltados, são amados por todos os que gostam de futebol e por aqueles que apreciam uma carreira de sucesso. Engana-se quem pense que seja por pena. É por respeito.

A Chapecoense queria conquistar a América jogando seu futebol e concluído seus objetivos. Passou a ser o segundo time do resto do Planeta e fincou um lugar verde no coração daqueles que amam a vida.

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