Quando a torcida não é ouvida

O time do Avaí, todos nós sabíamos, e ficou chato bater na mesma tecla, era limitadíssimo. Se alguém pegar todas as postagens de todos os blogueiros avaianos, todos os comentários, todos os debates na redes sociais, fóruns da imprensa, feicibuqui, tuiter, telefone da casa da Dilma, rabisco em bloquinhos, palavras na toalha das mesas na Toca, no Chapecó, na prestigiadíssima Barraca do Alemão, enfim, em qualquer lugar, e fizer um resumo, vai encontrar o mesmo texto. Parece que foi escrito pela mesma pessoa. E porquê? O palpite é algo democrático e todo mundo gosta de dar opinião?

Nada disso. É que torcedor entende de futebol.

– Nããão? Essa eu não sabia! – diria o dirigente que dorme em cima do saco de padaria (alô, Tarnowsky!).

É, é sim, senhor diretor de futebol, senhores gerentes administrativos e presidente do clube.

Se as pessoas que dirigem um time de futebol entendessem os recados que bradam das arquibancadas, certamente não precisaríamos ter times imbatíveis ao longos dos campeonatos. Ou não teríamos times tão ruins. Mas seriam, sem dúvida, times competitivos. Vai, pode ser um time que dispute com dignidade um torneio qualquer, pronto.

Eles não aprenderam que dez dentre dez times de futebol no mundo existem por causa de suas torcidas. É uma matemática que não falha. E continuam a fazer times fracos e dirigidos por técnicos medrosos.

Já afirmei por aqui nestes tempos de linhas mal traçadas que os times de empresários, aqueles sem torcida e montados apenas para disputar um torneio ou um campeonato, têm vida curta. Não empolgam.

Nem mesmo quando fazem um bom campeonato as TVs, caixinhas do capeta que propagam a empolgação das torcidas e geram dindins, se incomodam em registrar suas efêmeras passagens por aí. Qual a razão disso? Porque todo mundo gosta de time com torcida e porque a torcida conhece futebol. Sua palavra tem respaldo. Mas os dirigentes, poços de vaidades e melindrados e arrogantes ao extremo, não sabem disso. Ou fazem que não sabem. E dá-lhe dar espaços para empresários em seus clubes.

É evidente que no mundo dos negócios que envolve o futebol não se colocam torcedores de organizadas, nem o torcedor simples e apaixonado, tampouco o seu Zequinha do churros, sentados ali, ao lado do presidente do clube, dando seus pitacos e tomando decisões sobre como montar um time para uma competição. E não é nem por uma questão de preconceitos, mas de métodos.

Muitos torcedores, desses mais lúcidos, desses aí que convocam assembléias gerais ou comissões para montar chapas para conselhos administrativos, sequer sabem conduzir uma reunião em família, daquelas que decidem com quem fica o cachorro ou quem dá comida para o gato. Quanto mais definir os contratos de um elenco para disputar uma temporada num campeonato de futebol.

Porém, eles sabem como um time de futebol deve jogar, eles gostam de jogadores inteligentes e que se entregam ao time, adoram aqueles que valorizam e vibram por suas cores e, além do mais, sabem quando um jogador entende ou não daquele trocinho jogado dentro das quatro linhas de um gramado verde.

Evidentemente que nunca teremos clubes ou times perfeitos. Isso não existe. Os erros e acertos estão equilibrados e vão ocorrendo ao sabor das decisões. Mas, como se preconiza em sistemas de qualidade (e o Avaí Futebol Clube está com um certificado ISO pendurado na parede), controlar a qualidade significa, também, observar os erros e corrigi-los, enquanto é tempo. Algo parecido com a humildade de perceber que errou e tentar acertar.

Se a direção do Avaí houvesse dado ouvidos aos seus torcedores lá no começo dos tempos (ou mesmo cumprido suas promessas!), quando ainda havia tempo, sem dúvida não teria, agora, feito convocações lamuriosas, exposto vídeos melodramáticos, feito promoções de ingressos e rezado para santos, orixás e deuses de pau oco para que o nosso clube não afundasse mais uma vez. Todos, sem exceção, pediam um time competitivo e ordinário, não um extraordinário. Um time com jogadores que sentissem o campeonato e jogado como leões.

Mas, pelas razões que sabemos e por outras que jamais saberemos, os dirigentes, em sua maioria, gostam mesmo é da palavra amiga dos empresários da bola, que geralmente nos ofertam jogadores medíocres sob a aura de craques e depois nos deixam para saborear a amargura das derrotas e a desgraça dos rebaixamentos.

É a fórmula do fracasso.

A conduta para o sucesso? Ouvir mais e vaidades de menos.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s