Doutores da qualidade

Corriqueiramente, a gente lê e ouve a indefectível frase sobre o Avaí: “o time não tem qualidade”. Isso ressoa como se fosse uma tese de pós-doutorado defendida nos auditórios de Harvard ou Cambridge e o autor que a profere naquele momento pode ser convidado a tomar café da manhã com o Papa ou mesmo um jantar regado a vinho californiano com o Obama. Quem expõe esta frase é considerado um exímio conhecedor de futebol. Alguém ouve e diz: “olha, esse cara entende de futebol, hein, é capaz de treinar o próximo escrete do Barcelona”. Sim, uma pessoa que atesta com autoridade que um time de futebol não tem qualidade deve saber de muita coisa, quem sabe até qual será a próxima partícula subatômica.

Mas, o que é um time sem qualidade?

Durante muitos anos atuei como auditor de qualidade em serviços. Sei quais são os requisitos para se definir se algo tem qualidade ou não. Compreendo os processos. E também, desde guri, desde que andava de calças curtas e chinelos de dedo, acompanho futebol. Sei o que é um escanteio e como definir um impedimento. E quando é gol, principalmente.

E aí junto as duas coisas, qualidade e time de futebol, e fico na dúvida outra vez. Time de qualidade é o que joga bonito? Seria o jogo bem jogado, brilhante, respeitando boas práticas do futebol? Um que só faz gol de placa? Quando tem um goleiro que faça defesas portentosas? Um time que só dê passes antológicos? Tem um meia que faz lançamentos precisos? Tenha esquema tático bem definido? Time que não perde há muitos jogos? O que ganha campeonatos?

O entendido do futebol dirá, com certeza: “isso não se mede, a gente sabe como é”.

Bom, ouso discordar (aliás, discordar da massa, hoje em dia, é correr o risco de ser xingado), mas qualidade se mede, sim. Eu sei disso. O bom Aurélio nos diz que qualidade é a propriedade de se distinguir coisas ou pessoas umas das outras. Vago, como qualquer dicionário, mas dá uma pista.

Eu, também, tenho repulsas ao senso comum, aquela coisa de impor uma opinião ou conceito baseados na tradição, na experiência coletiva, e defendida como verdade absoluta. Entretanto, podemos chegar a uma conclusão empurrada goela abaixo: time de qualidade é aquele que encanta por ser diferente dos outros que já vimos jogar. Pode ser assim?

Eu pergunto, então, aos doutos entendidos de futebol por estas bandas: quem era Vandinho quando veio parar no Avaí? E Leo Gago? E Uendell? Alguém já havia ouvido falar em Émerson antes de ser zagueiro do Avaí? E Válber? Lembra daquele gol contra o Vila Nova? Responda agora, sem consultar a Wikipedia, você que é exímio conhecedor de futebol, em que time Marquinhos Santos jogou como peça de extremo valor, diferente dos outros, para ser definido como craque na Ressacada? Ih, rapaz… senti um pedala, Robinho agora na careca.

Bom, este time aí fez história em 2008/2009. Todos sabemos. Mas era um agrupamento de singelos desconhecidos que deu certo por aqui. Nenhum deles voltou a jogar com destaque e ser referência em qualquer outro time. Porque as coisas se ajeitaram e o time foi vencendo naquele momento. Time que é bom é aquele que vence, canso de dizer isso.

Por que não largar, dessa forma, essa pose de entendidos? Não dá, então, para esperar um pouco mais e ver no que vai dar o atual time do Avaí, antes de se sair dizendo que é um time sem qualidade? Ou a murrinha encruada não deixa?

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