O sangue que não para de pingar

A boa democracia defende a ideia de que opinião tem (e deve!) ser respeitada. E também que a voz de torcedor é aquela carregada de emoção, sem nenhuma razão. Assim, tudo o que se diz no calor das competições ou no oceano das arquibancadas deve ser levado em consideração. Deve ser amenizada a resposta em contrário. Evidentemente que, quando a violência ou as ofensas e insultos superam o simples ato de torcer, isso deve ser combatido. E com a lei, se for o caso.

Porém, ainda que se permita a liberdade de expressão daquele cujo coração pulsa por seu clube de futebol, exige-se um mínimo de bom senso. O limite entre a consciência e a toupeirada deve ser identificado e tentar se levar o incauto à primeira opção, a ter consciência. Nem que seja na Justiça Presente.

Durante a partida contra o nosso único rival, comentei com meu irmão sobre o que se passa na cabeça de alguém que vai a um jogo para tentar pular um alambrado e bater no torcedor adversário. Ou ainda incitar a violência ou ao menos uma agressividade barata. Por mais que se diga que numa arquibancada vale tudo, eu ainda acho que não. Todavia, e sem ser incoerente, os ânimos se exaltam no calor de uma partida. Não se justifica, de forma alguma, a agressão mútua, mas ainda assim se entende. São humanos, diria Moisés no alto da montanha!

Agora, o que não consigo aceitar é que homens e mulheres barbados, humanos em sua essência, com vivência social, com uma vida cheia de planos e objetivos, alguns com filhos e responsabilidades diversas, largarem este fel quando ninguém os está vendo, atrás de um teclado e muitos quilômetros longe de uma arquibancada. Quando, ao empurrar uma tecla do computador, na frieza de uma madrugada, é capaz de pensar antes de dizer bobagens e não pensa. Não usa aquilo que a natureza nos forneceu de mais singelo, o cérebro.

E a profusão de bobagens, de calhordices, de sandices e excrescências ditas nos dias que antecederam o clássico foi tamanha de corar o capeta em dia de bacanal no inferno. Quanta gente tola, sem noção, que diz amar o seu clube, mas prefere enfiar o pé na porta, não o ajuda e ainda faz força para que ele se estrepe. Afirmo, sem nenhum constrangimento, por mais que se tenha razões, lançar pedras no próprio clube é dar tiro no pé.

Tenho visto aí boa parte da torcida do Avaí atirando pra tudo que é lado contra a diretoria, contra a formação de elenco e afundando a reputação dos conselheiros. De simples comentários contrários à verborragia maldosa, tudo está sendo largado.

A negatividade está atingindo níveis maiores que os piores terremotos do planeta. Gente de dentro do clube só falta ser levada de camburão, sugerem os mais afoitos. Se alguém com a camisa do Avaí, cujas cores não são aquelas definidas por uma minoria que se acha dona da marca, sair às ruas, pode não voltar mais para casa.

E dizer que se torce para o Avaí e que se deve pedir um pouco mais de calma, é pior que ser traficante na Indonésia.

O que é que está acontecendo?

Ah, sim, as coisas não estão como foi combinado? Não disputamos um título por dois anos (olha só, dois anos!)? O fracasso nos assombra? Decisões da diretoria são frágeis e carecem de melhores iniciativas?

Sim, claro que sim. Tudo isso estamos vendo e acompanhando. E cobrando. Mas quem disse que era fácil? Devemos criticar e pedir que a diretoria tenha mais responsabilidade na condução das coisas do clube? Mas é óbvio.

No entanto, imaginar que esta conduta vai nos levar a um rebaixamento na série A, ou que o clube vai falir logo ali na frente é de um estupidez tão grande que só posso imaginar que o sujeito deve estar ainda sentado na arquibancada, dando comida pros quero-queros e babando sobre a camisa.

Ganhamos o jogo contra o rival, se ninguém ainda soube, quando os “lúcidos” já davam como derrota clara e absoluta. “Vamos ser atropelados”, bradavam alguns.

Não sou e nunca fui corneteiro de corneteiro, como definem estes fracassados existenciais. Eu evito, ao máximo, sair alargando a pá do ventilador com bosta sacramentada. Mas parece que isso incomoda. O bom torcedor, dito por estes, é aquele que enfia a faca e faz sangrar, porque é bacana exigir desse jeito, “com veemência e não tapando o sol com a peneira”. E confundem esta tolice com crítica. Eu prezo é pelo meu clube e entendendo que tudo isso faz parte da vida do futebol.

Aceite que é mais tranquilo para a sua existência: não vai ser fácil, mané! Mas foi assim que a gente se formou como torcedor. Vamos perder e ter fracassos sucessivos, bem como conquistas homéricas. Isso é futebol, seu tanso!

E se não quer ajudar, faz assim, não atrapalha! Arrume algo melhor para fazer de madrugada, para o bem de nossos ouvidos.

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