O fato e a versão

As redações dos grandes jornais, no passado, tinham um profissional que prezava pela qualidade do que saia em suas páginas, o editor, uma figura que organizava as matérias trazidas dos repórteres, de todos os cantos, e as selecionava, corrigia e dava um caráter cronológico de acordo com as suas importâncias. Evitavam, assim, as tais barrigas, que são as matérias lançadas sem fundamento ou mais próximas da fofoca do que do fato em si. Era o sujeito que não permitia, por exemplo, o surgimento daquela máxima de John Ford no filme O Homem que Matou o Facínora, de 1962, onde aparece um jornalista que declara, ao final, “se a versão for mais importante que os fatos, publique-se a versão”.

Este profissional não existe mais nos jornalões, ou se existe, é uma toupeira que apenas esquenta uma cadeira numa sala refrigerada, haja vista que a maioria das notícias que lemos nos grandes jornais hoje em dia são um amontoado de retalhos descoordenados, cheios de mentiras ou falsas informações, aliados muito mais à classe dominante e seus interesses do que o contar dos fatos e notícias reais.

Soubemos, por aí, que o atacante Borges vinha, mas não veio para o Avaí. Nossa condição para resolver problemas beira ao desespero e qualquer notícia “agradável” é lançada ao vento, como forma de amenizar a quantidade de tansices executadas dentro do estádio de tijolinhos a vista. Estamos igual ao sujeito que está falido, mas que quando entra uma graninha no bolso sai correndo contar pra todo mundo que acabou de comprar um bife de filé mignon no açougue.

E então, no Avaí, se largou a história de que iríamos contratar o Borges. Agora vai, se pensou. Seria nosso filé mignon da última semana. Borges iria resolver nossos problemas de falta de gols, igual ao que acontece com o ataque do espanhol Barcelona, cheio de perebas. Sairia dos pés do Borges a virada em nossa nada mole vida. Nem é tudo isso, mas a expectativa foi criada e alimentada.

E aí, eis que nem mesmo assinou o contrato e já foi embora. Estava tudo acertado, já iria desembarcar no Terminal Rita Maria, mas na última hora tirou o pé do ônibus. A alegação do empresário era de que o fator torcida o fez repensar numa estadia profícua no Kobras…, nos Carianos. Logo depois, surgiram tantas outras versões que o fato foi o menor dos problemas.

Então, fico pensando. Quantos assessores de imprensa transitam pela Ressacada para se evitar que mais um mico informativo deste tipo fosse dado, sem que houvesse as devidas avaliações da notícia que deveria sair e a que deveria ser evitada?

E ainda estamos em Março.

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