Quando o fígado é maior que a cabeça

Todos os que assistimos à Copa das Confederações, em 2013, quando a seleção brasileira deu de relho em todas as outras, inclusive na seleção portentosa e imortal dos grifeiros, a Espanha, diziamos que a era do bom futebol brasileiro havia retornado e que aquela mostrava-se como a melhor seleção dos últimos tempos. O fracasso na Copa, um ano depois, mudou isso tudo e houve quem atestasse firmemente que nosso futebol estava no fundo do poço. O resultado emblemático dos 7×1 testemunhava isso, ora bolas! Sei. Aí Dunga reassumiu e mostrou que não era bem assim e que até que dá para tirar um caldo deste grupo.

Volto sempre ao mesmo tema, porque a volatilidade das emoções do torcedor diverte e é rica. Dá casos de estudos aos montes. A história contada agora, de que o time do Avaí é ruim de dar dó, cairá por terra assim que vencer algumas partidas da série A ou da Copa do Brasil. Pablo, a naba da vez, já é craque se comparado a Bocão, tido até então como um nada de coisa alguma. Dizia-se que qualquer coisa seria muito melhor que Bocão. Portanto, Pablo já pode ser convocado para a seleção brasileira, não pode?, haja vista que é muito melhor.

Ouvi muita gente defender radicalmente a volta de Eltinho ao Avaí, assim como a de Roberto. Eltinho até que teve passagens razoáveis nos times onde atuou antes de vir para o Avaí, em 2009. Por outro lado, ele começou mal aquela temporada e só se firmou num jogo contra o Internacional de Porto Alegre, pela Série A, vindo a ser um dos destaques daquele time logo depois. Todavia, jornadas sofríveis e contusões diversas foram minando o seu alegado bom futebol. Hoje, sem dúvida alguma, não tem condições sequer de compor um banco de reservas, até que faça uma boa partida e volte a ser amado e reverenciado, coisa que trará satisfações a quem tenha pedido entusiasticamente a sua contratação.

Roberto foi outro jogador remanescente daquele time de 2009 e que é exigido a cada início de ano. Mas a sua contratação não foi bem aceita naquela época, pois havia jogado no rival, cláusula pétrea para quem vê jogo ruminando. Até o jogo contra o Goiás, quando o time do Avaí deu uma virada e de amontoado virou sensação daquele ano do Brasileirão, Roberto teve atuações apagadas e era para ser mandado embora. A partir daquele jogo, virou mito e lenda no time do Sul da Ilha.

Até outro dia, os atacantes trazidos pela atestada incompetente diretoria avaiana pelos sabichões de ocasião eram singelos cones. Deveriam trazer um matador valorizado, exigiam os donos da verdade. Mesmo qualquer um bom atacante, afirmava-se, estando completamente fora de forma, seria melhor que os Betos e Ricardos Jesus que estavam por aí. André Lima é um dos bons atacantes do futebol brasileiro. É bem conceituado por aí e ouvi fogos quando foi contratado. Está fora de forma. E não rende como o esperado, igual aos que passaram por aqui. E já há quem o queira fora do time.

Ah, mas não temos um meia que ponha a bola na área, justifica-se. Quando Marquinhos voltar aí será diferente, supõe-se. Mas tem que ter um meia que o ajude. E tivemos. Cléber Santana, Diego Jardel. Até Camilo, que foi destaque na Chapecoense guerreira de 2014. E se… e se… e se…

Quando lembro de todas as listas de supostos treinadores para o Avaí exigidos pela torcida, me vem ondas de riso. Ao longo dos anos sempre traziam Geninho no meio delas, um sonho de consumo alentado e resguardado. Hoje, por não ter trazido jogadores de algumas viúvas, é execrado e chamado de burro.

O que me motiva a discutir estes exemplos é, exatamente, a constatação do quanto as verdades absolutas, as teses fechadas e fundamentalismos não correspondem com à realidade. O quanto o fígado é o órgão principal para alguns. O futebol é um esporte dinâmico. Se hoje estamos ruins, amanhã poderemos melhorar, ou ao contrário. A pífia campanha do ano passado demonstrou como isso é correto, quando, ao final do ano, obtivemos um acesso por circunstâncias magníficas e houve quem desse ao time a indefectível flâmula de guerreiros, sendo antes um time de nabas.

O futebol não é jogo de vídeo game, onde podemos “escalar” jogadores do passado com os da atualidade e fazer um time poderoso, ganhando de todos os meninos da rua.

O fígado não pode mandar mais que o cérebro, porque senão a bipolaridade aflora. Comentar ou defender causas com ele garante o quanto somos suscetíveis aos resultados. O tempo sempre mostra ao contrário, para mais ou para menos, conforme as estatísticas. E aí fica feio, depois, desmentir a verdade até então determinada como definitiva dita outro dia. Mas muita gente adora posar de volúvel. Não tem jeito.

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