Com força nas ventas

Existe por aí uma tendência à coitadização das coisas quando elas assumem pontos fora da curva. A curva do pré-definido, diga-se. Do estabelecido por regras elitistas.

O natural é um rico se dar bem na vida e quando um pobre chega as expressões de espanto e inconformidade são enormes. A mãe do abastado loirinho de olhos azuis diz para ele um “como é que pode?” quando o negrinho da favela consegue superá-lo em qualquer âmbito da vida.

Recentemente surpreendemo-nos com um garoto meio mulato nordestino, estudante de escola pública, morador de uma região pobre do sertão, acertando 95% da prova do ENEM. Valeu matéria do Fantástico. Foi objeto de estudo demo-sociológico. Um “é impossível” foi largado como se aquilo representasse a falência do ensino, principalmente o do Sul e Sudeste dos brancos lustrosos. E aí se entendeu a razão: ele estudou. Ele passou horas numa biblioteca. Ele fez o natural, o plausível para passar numa prova, quando os outros, os loirinhos, iam pra balada.

Faço essa arenga para determinar que: vence quem quer. Vence quem se dedica. Chega na frente o que deu um duro danado para isso. Dinheiro, status, belos olhos ou nome de família não são garantias de vitória para ninguém. Para nada. Nem mesmo o “já sai com vantagens” é fator determinante. A lebre sempre perde para a tartaruga nessas condições. Perseverança e vontade, além de muito sacrifício, é o que torna alguém vencedor.

Este preâmbulo de auto-ajuda trago para o futebol. Desnecessário dizer que é uma atividade esportiva onde a competitividade é assombrosa. Mas só é vitoriosa a equipe se houver trabalho e dedicação dos envolvidos. Nenhum time de futebol na história mundial foi campeão no nome. A história, as glórias do passado não ajudam quando o suor começa a escorrer.

As conversas que circundam os bastidores e mesinhas de botecos quando o assunto é futebol dizem respeito à chegada dos catarinenses na série A do Brasileirão. Todos, até seus torcedores, espantam-se. Teses são lançadas. Buscam-se explicações, algumas escabrosas. Teorias da conspiração afloram para uma coisa ou outra. Até a tolice de que o futebol brasileiro está em falência já saiu, corroborando a história de que só o menino loirinho é que pode chegar. Mesmo o nosso Avaí, tido como fracassado por seus próprios torcedores, conseguiu porque já trazia alguma organização na sua bagagem, ainda que minimamente.

A única e correta explicação para isso, a mais plausível e a que define bem o quadro é: nos organizamos; comemos, durante muito tempo, o pão duro e mofado que o capeta amassou arrumando as casas e agora conseguimos um espaço. Estudamos, durante anos, no fundo da biblioteca e agora tiramos média para passar na prova. Porque ninguém chega por seus belos olhos. Foi isso e apenas isso. O resto é conversa pra boi dormir. E boi que dorme muito vira churrasquinho amanhã.

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