A verdade que não pode ser contestada

Ao saber do falecimento do ator Robin Williams fiquei consternado. Com esta ou aquela ressalva, o tive como um bom ator. Carismático, bonachão e cujos papeis ressaltavam sua índole. Certa vez declarou palavras duras e ruins em relação ao Brasil, coisa que me deixou profundamente chateado, porém não deixei de ser menos admirador de seu trabalho. Eu não costumo medir as pessoas dessa forma, pelas palavras que proferem.

De todos os personagens que Robin Williams representou, o que melhor marcou uma época, para mim, foi o professor John Keating, de a Sociedade dos Poetas Mortos. Neste filme está em discussão a percepção dos valores, o discurso de autoridade, o pensar, o refletir, o discutir ideias e pensamentos. Os “donos da verdade” sendo postos em dúvida. E aí o próprio Robin Williams, que sempre passou a imagem de altivez, de serenidade e ao mesmo tempo de impetuosidade, teve no suicídio a decisão de acabar com tudo.

– Carpem die! Aproveite o dia!

A frase que marcou seu famoso filme. E, sem querer julgar ninguém, é bem provável que tenha sido a frase que ele não tenha usado. A vida não imitou a arte.

Talvez não aproveitemos, também, em nosso dia a dia, a vida que nos cerca. Nossas amarras existenciais não permitem que colhamos bons frutos das coisas. Remoemos murrinhas encalacradas para não dar o braço a torcer. Porque achamos que a nossa verdade é mais verdadeira que a verdade dos outros. Nossos valores são os valores que nós achamos, não os que os outros, por direito, também acham.

Esta reflexão cabe para o futebol, sim, senhor. É o esporte que moldou a nossa cultura, quer se queria ou não. A competitividade que exerce expõe o comportamento em nossa sociedade, mesmo para aqueles que abominam o esporte. E, por isso, é tão recheado de definições e pontos fechados. De verdades acabadas. De opiniões definidoras e supostamente duradouras.

torcidasO enfrentamento que existe no futebol, o antagonismo que o faz existir, é levado o extremo. Por isso é tão recheado de conflitos e divisão de princípios, com cada qual emoldurando suas verdades com seus próprios conceitos.

As arquibancadas vazias são o reflexo disso. O suicídio coletivo. As verdades impondo ordens. A crítica não ajudando a refletir, mas a definir espaços.

A cada rodada os seres ditos racionais se impõem, com paus, pedras, facas e armas de fogo. O adversário vira inimigo. O rival deixa de ser outro humano. A defesa da verdade da cor de camisa assim ou assada leva a dor a uma cor diferente. Às vezes, até da própria cor.

Humanos que confundem competição com guerra, ideias com leis. Vida com morte.

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Um comentário sobre “A verdade que não pode ser contestada

  1. O simples reconhecimento da brevidade da vida e a busca da tranqüilidade, que há pouco mais de dois milênios moveram o poeta Horácio ao carpe diem, parece não ter encontrado eco em muitos dos nossos congêneres, não é mesmo?
    Pô, dois mil e poucos anos atrás alguém já sacou, proferiu, grafou e “evoluídos da vez” não se dão conta?! Deve haver algum “elo enferrujado” na corrente da evolução.

    Texto inspirador, camarada.
    Abraços,
    Carlos Cidade

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