A vergonha… em 1966

O escritor e cronista Nelson Rodrigues escreveu esta análise, intitulada A Vergonha, sobre a desclassificação da seleção brasileira, em 1966, na Copa jogada na Inglaterra. Guardadas as proporções, a atualização de dados, trocando personagens, parece que é mais atual do que nunca. E se o leitor na sabe, depois de 1966 fizemos uma seleção impecável, que ganhou o tricampeonato no México, em 1970. E após a derrota para a Argentina, em 1990, quando se dizia que o futebol brasileiro havia acabado, ganhamos outras duas Copas.

As derrotas nesta Copa, em casa, foram doídas, mas nada que se acumulem desesperos. Ou seja, os desesperados de ocasião que tomem um suquinho de maracujá.

Mas eis o texto do mago das palavras, Nélson Rodrigues. Aprendam.

Amigos, eis 80 milhões de brasileiros numa humilhação feroz. Eu diria que a vergonha de 50 foi mais amena, mais cordial. Naquela ocasião, não tínhamos o bicampeonato. Ainda não se instalara em nosso futebol o mito Pelé. Ah, o brasileiro de 50 era um humilde de babar gravata. Quando passava a carrocinha de cachorro, cada um de nós tinha medo de ser laçado também.

Mas hoje, não. Ou por outra: – até ontem, o brasileiro poderia avançar até o limite extremo da ribalta e anunciar, de fronte erguida: “sou bicampeão”. E de repente, o duplo título começa a ficar antigo, obsoleto, espectral, como se não significasse mais nada. Olhem para as nossas esquinas e os nossos botecos. Por toda a parte, uma sensação de orfandade. Dir-se-ia que Suécia e Chile são duas glórias fenecidas.

Quando acabou o jogo, li em todas as caras a pergunta; “Por quê? Por quê?” O melhor futebol da Terra conhecia uma humilhação mundial. Não falo do resultado. Qualquer um perde, ganha ou empata. Em 54, o escrete húngaro do Armando Nogueira entrou por um cano deslumbrante. Mas não houve o ridículo, eis o importante, não houve o ridículo que desabou sobre o nosso escrete.

E, de fato, a seleção do Brasil não jogou como um time e jamais foi um time. Graças à comissão técnica, fomos, do começo dos treinos até a estréia na Inglaterra, um bando de ciganos a dar botinadas em todas as direções. Alguém que não conhecesse os títulos do Brasil havia de pensar: “eis um time de pernas-de-pau, eis um time de cabeças-de-bagre!”.

E seria injusto, monstruosamente injusto. Porque o jogador brasileiro continua o melhor do mundo. Nada descreve e nada se compara à graça, ao sortilégio, à flama do nosso craque. Cabe então a pergunta: – e por que fez tanta vergonha? Eis o óbvio ululante: – o time do Brasil não foi derrotado nem pela Hungria, nem por Portugal. Derrotado está pela burrice da comissão técnica.

Através de quatro meses, a comissão teve tudo. Com menos dinheiro, a Inglaterra fez seu império. E a comissão teve prestígio, e apoio, e promoção, e entusiasmo, e confiança, e autoridade. Pois bem. Nos quatro meses, ela não revelou um único e escasso momento de lucidez. Quando a gente se lembra do que ela fez, chega-se a pensar em insânia. Mas aí é que está: – a burrice á a pior forma de loucura.

Repito que o Brasil saiu daqui sem um time formado, sem um projeto tático e sem saber como ia jogar e com que craques jogaria. Parecia brincadeira, uma sinistra, hedionda brincadeira. Nem isso e pelo contrário. A burrice não tem humor, a burrice é grave. Advertida pelo rádio, pela imprensa, pela TV, a comissão ia cometendo as inépcias mais inverossímeis. Oitenta milhões de brasileiros pediam um time, pelo menos um time, bom, mau ou péssimo, mas um time, apenas um time, um desgraçado time. E, à medida que ia acumulando os erros, a comissão era cada vez mais enfática, mais infalível, mais onipotente.

Jogamos três vezes. Depois do jogo da Bulgária, esperou-se que fosse mantida a equipe. Mas ai de 80 milhões de brasileiros! A burrice tem sutilezas geniais. Como a Hungria vinha feroz em cima do Brasil, entramos e campo com outro time. A comissão desintegrou a defesa, mexeu no ataque. Contra Portugal, outro time. E, se viesse um quarto jogo, um quarto time. Tudo isso nas barbas atônitas de um povo.

Amigos, na catástrofe de ontem comprovamos mais uma vez esta verdade inapelável e eterna: – na batalha entre o gênio e a burrice, ganha esta e o gênio fica rosnando de impotência e frustração. Venceu a burrice imortal da comissão técnica.

(texto escrito após a desclassificação do Brasil, nas oitavas-de-final, para Portugal por 3 x 1, em 19/07/1966, na Copa da Inglaterra, e publicado em O Globo)

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