Crise de identidade

Muito se tem falado sobre a campanha pífia dos clubes de Santa Catarina nas séries em que participam, principalmente na série A. Evidentemente, a projeção aí nesta série é maior e o alarde para as derrotas e decepções acompanha a exposição. Porém, como vivemos numa sociedade onde a memória é fraca, poucos falam que a Chapecoense penou anos nas séries abaixo da C. Que Metropolitano, Marcílio Dias, Brusque e assemelhados dificilmente passam das primeiras fases das competições nacionais, nas séries C para baixo e dependem de convites para voltarem no ano seguinte. E que Avaí, Figueirense, Joinville e Criciúma sempre foram singelos coadjuvantes nos campeonatos nacionais de maior expressão, com uma partipaçãozinha melhor aqui ou ali.

O problema, se fizermos uma análise mais criteriosa, não se restringe aos clubes de destaque em nosso quintal, mas é disseminado entre todos e é crônico. Todavia, apontar apenas problemas de gestão, ou falta de profissionalismo da administração de futebol, é simplório e raso. A questão é mais complexa e ampla e depende de aspectos históricos.

Santa Catarina sofre dos mesmos problemas de relacionamento com o restante do país que sofrem, também, os estados da Amazonia e boa parte do Nordeste, que é a questão do intercâmbio. Esse é o fator crucial que nos faz, mesmo estando encravado no meio de dois gigantes como Paraná e Rio Grande do Sul, ser ainda um Estado-gueto. É só acompanharmos os noticiários em rede nacional, das quantas vezes que somos notícias, exceto quando for algo negativo ou desastroso muito sério.

A geografia do nosso Estado colaborou, internamente, de forma decisiva, para que o pessoal do Norte não se dessem com os do Sul e os do Oeste rejeitassem os do Litoral. E vice-e-versa. E essa animosidade existe até hoje. No final do século 20 para cá é que houve mais interatividade, com as BRs correndo longitudinalmente o Estado. Na política não somos decisivos e temos disputas tribais, e na Economia a riqueza é concentrada nas áreas das grandes indústrias de Joinville a Blumenau, ou no agronegócio de parte do Planalto para o Oeste. E isto se estende até a cultura. Sofremos uma severa crise de identidade.

Ou seja, o individualismo em diversas áreas em Santa Catarina colabora para que a coesão, a necessidade de se ter um “pensamento coletivo estadual”, inexiste.

No âmbito do esporte, prevalece a força do esporte amador, mas cujos atletas assim que se projetam, buscam outras praças com maiores recursos visando uma carreira sólida que dificilmente conseguiriam por aqui. Assim, o esporte local é formador e não vencedor. Um exemplo bem claro foi o volei, que possuia determinação, mas não vingou.

No futebol, temos dirigentes migrados da produção industrial e do terceiro setor para a área do futebol. Fazem o que é possível, com abnegação e empenho, mas falta-lhes traquejo para lidar com as artimanhas do esporte mais popular do planeta. Além disso, historicamente, até uns dez anos na Capital se torcia efusivamente para times do Rio e de São Paulo. Mas ainda permanece no Sul, Planalto e Oeste as torcidas ferrenhas para clubes gaúchos, enquanto que no Norte do Estado a preferência é pelos paranaenses. Raramente, nestes lugares, o clube local está em primeiro lugar. A crise de identidade é evidente.

Portanto, em dez anos, querer que o futebol em nosso Estado seja uma potência, ou que incomode a quem já esteja na estrada há quase um século, é não enxergar o óbvio. É vender um produto falso, cujo lucro não é de quem produz. E achar que seja apenas por problemas de gestão, que os administradores dão topadas por incompetência, é não analisar com precisão todo o contexto, mas jogar para a torcida.

Se vivêssemos em um estado onde os predicados gentílicos catarinenses fossem fortes, a pindaíba pelo qual passam nossos clubes seria resolvida com transmissões das partidas com maior ênfase, dando visibilidade, com a mídia nacional se compadecendo e com os investidores botando oncinhas e garoupinhas uma em cima da outra para nos financiar. Atualmente, somos apenas convidados pobres na festa deles, e ainda assim entramos pela área de serviço e usamos o elevador de carga.

Entretanto, precisamos continuar assim mesmo, apanhando, conquistando um espaço aqui, outro ali, nos fazendo presentes, mas criando a cultura do futebol por aqui e alçar vôos mais altos lá na frente. É bom que tudo isso esteja ocorrendo, para se ter a exata noção de quem quer ajudar e de quem quer se aproveitar.

A segunda etapa do processo será dar um corridão nos oportunistas, os que promovem a competição estadual para proveito próprio, como a Federação, e os que nos exploram para posar de patrocinadores, como a rede de TV famosa, que usufrui, usa e se lambuza com nossos clubes, mas não dá um centavo a mais em troca de um bom planejamento. E ainda diz que o problema está nos dirigentes.

A propósito, algumas manchetes nos sonegam onde está, verdadeiramente, o problema. Preferem a perfumaria, a ensebação, o novelo, mas escondem suas responsabilidades. Vendem um produto quebrado para obter as lascas, porém não voltam para juntar os cacos. Lá, em sua terra natal, se fizessem isso, seriam execrados. Aqui, na terra dos papa-siris, incitam a patuléia a comprar um produto maquiado e não dizem o que fazer para irmos adiante.

É bom e é importante que este pano pintado esteja desbotando. Assim, os catarinenses, se quiserem mesmo ser bem representados em qualquer segmento da sociedade, que sejam por gente daqui, criada aqui  e aprendendo com os erros aqui mesmo, sem intermediários e sem oportunistas.

Os ventos ainda nos serão favoráveis, é só uma questão de tempo e esforço conjunto.

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