O ódio dos superiores

Na sociedade intolerante e expositora do ódio em que vivemos, ficar em casa tem sido a melhor solução. Nos tempos os quais a nossa espécie vivia em cavernas, mantinha-se o fogo aceso e a borduna ao lado na laje onde se iria dormir, de forma a espantar as feras e os inimigos. E toda a tribo dividia a caverna.

Nos tempos atuais, precisamos nos relacionar com as pessoas, sair para o trabalho, para estudar, para nos divertirmos, para exercer nossa capacidade de agregação e vivência em grupo, típica da espécie.

Entretanto, essa convivência tem-se tornado um perigo.

Andar nas estradas, sair para festas, ou mesmo para o trabalho e até uma simples caminhada transformaram-se em atitudes de risco. Se expressar, ter uma postura, ser alguém de qualquer classe, cor, condição social, credo ou identidade é uma afronta a quem detém o ódio. O intolerante não permite os contrários e usa da violência pura e extremada para calar ou até matar o alvo de sua contestação, uma vez que a opinião ou condição social dele é a mais importante.

Não ouse contestar o dono da verdade, seja qual verdade isso signifique!

Por outro lado, já há quem apele para a justiça com as próprias mãos e estimulando isso em cadeia nacional de TV. E não creia você, leitor, que é porque se está pegando bandido e aí pode. É porque o alvo é um pobre, um pé-rapado, um zé-ninguém e aí, sim, isso pode, pois na sociedade elitista os primeiros alvos são os pobres, os inferiores, aqueles cuja condição é menor ou mas baixa, segundo a ótica do ódio às diferenças e aos diferentes.

Nos estádios de futebol essa postura é ampliada. Atinge patamares de abominação. A irracionalidade de quem odeia o contrário, considerado inferior, chega às raias da loucura. Nosso time é o melhor e a nossa torcida é a maior. Os outros são restos que precisam ser judiciados e/ou punidos.

O caso do torcedor esmagado por um vaso sanitário no estádio do Arruda, exatamente porque torcia para um time adversário, um inferior, é o exemplo dramático da condição a que estamos chegando. Porém, por mais que isso nos assuste e cause repulsa momentânea, torna-se mais um caso a engordar as estatísticas funestas relacionadas a estas atitudes. As brigas entre torcidas são meras defesas de territórios, onde o que se considera mais forte e melhor bate e mata sem qualquer remorso. As ofensas e insultos pelas redes sociais são apenas uma das faces do ódio disseminado. Do outro lado não há um ser humano, mas uma fera ou inimigo a ser exterminado.

É impossível ter uma expressão, dizer o que se quer e o que se sente, ou ter a liberdade de se torcer para quem quisermos, uma vez que isso pode estimular ódios enrustidos de quem é contrário, de quem se sente melhor e superior.

Clama-se por um basta. O basta natural que se usa é a aplicação da lei ou a coerção oficial. O basta ingênuo é se exigir mais educação. O basta oculto é o olho por olho. Mas o basta obrigatório que a sociedade vai começar a aplicar será voltarmos para as cavernas e acendermos as fogueiras. Estamos quase próximos disso, uma vez que as feras estão soltas. A vida em sociedade está se acabando.

– Liga o pay-per-view! Pelo menos não nos misturamos, não é mesmo? – conclui-se.

 

 

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4 comentários sobre “O ódio dos superiores

  1. Olá, Aguiar.
    Entendo que o tema seja prioritariamente futebol,
    mas o teu texto me provocou a reflexão que segue:
    Não sou especialista em, mas como portador de, entendo ‘ego ‘ como um instrumento identitário funcional para a vida em sociedade. Como o piano para o pianista no recital.
    Não somos o nome nem outros títulos que carregamos, mas nos identificamos e reconhecemos uns aos outros através deles. Vejo-os como substantivos necessários e suficientes na comunicação entre animais simbólicos.
    Talvez toda essa insanidade, exposta em cada esquina, tenha resultado das distinções que estabelecemos ao longo do tempo, nas variadas culturas, pela assunção do ‘ego’ como o eu pleno. Essa vista de um ponto só. E assim nos tornado o instrumento em vez de utilizá-lo como tal.
    Ponderar que sejamos variações indistintas da mesma substância, composta de
    átomos gerados no núcleo da mesma estrela e estejamos conectados a infinitas possibilidades,
    será igualmente insano? Será funcional atirar pedras a esmo, só para garantir nosso isolamento em multidão? Será que estamos vivendo ou apenas existindo?

    Abraços
    Carlos Cidade

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  2. Uma das grandes causas disso tudo chama-se MÍDIA, e não preciso ser nenhum entendido em antropologia ou sociologia, basta apenas estar numa sala de aula, no dia – a – dia, o que os alunos estão fazendo e com a conivência dos pais é uma grandeza. Tudo que a mídia fala eles acreditam e acham ser a verdade suprema, incapazes de pensar em qualquer coisa que seja diferente, e o pior incapazes de aceitar opiniões contrárias às deles sob pena de ser chamado de todos os adjetivos que caracterizam um ditador.

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