Sem pretextos e sem perdões

Normalmente, no dia a dia, quando não queremos participar de alguma coisa, quando queremos ficar de fora de qualquer evento, projeto, mobilização ou algo parecido, apresentamos desculpas. É da nossa natureza. Criamos toda a sorte de bengalas existenciais para evitar participar daquilo ao qual fomos convocados e não estamos afim. Dependendo da situação, às vezes a retirada da reta pode-nos ser lesiva, outras vezes é criminosa, em determinadas circunstâncias acarretará prejuízos a terceiros ou pode não significar coisa alguma. Fugir de alguma responsabilidade tem seus prós e contras.

Contudo, será mais honesto aquele que admite que saiu pela tangente sem apresentar desculpas esfarrapadas.

Ele diz:

– Não quero e pronto.

Se for uma situação criminosa ou que leve prejuízo a outros, admitindo a culpa, sem mentiras, poderá até ter sua falha diminuída.

Se não houver importância na apresentação de desculpas, pelo menos posará de honesto.

Fiz toda esta ladainha para discutir a importância de um torcedor de futebol no estádio. E a ausência baseada em desculpas, muitas delas furadas. Sei que o assunto é chato e enfadonho. Muitos dos que adoram uma desculpa, ou correm atrás de benefícios do clube, dizem que culpo torcedores. Alguns até com segundas intenções, haja vista que sou partidário do presidente Zunino e eles não. Entretanto, pouco me importam as caras feias.

Observando um relatório da Pluri Consultoria, que é quem tem feito levantamentos nesta área em nosso país, percebi algo que já havia exposto antes, inclusive com um outro relatório da FCF, atestando que os torcedores de uma maneira geral não frequentam estádios por conforto próprio. Esta ausência é histórica e não está relacionada a apenas e tão-somente aos aumentos de ingressos, como se diz por aí. Está envolvida com comodidades também. Torcedor que se diz enxotado ou vive de mimimi, murrinha e xarope tem tanto culpa como razões.

Diz o relatório, em uma de suas análises, que os 30 campeonatos Estaduais e Nacionais analisados (no período de 2012-2013) tiveram média de público de 4.084 torcedores, o que corresponde a apenas 21,8% da capacidade média dos estádios, que é de 18.766 torcedores.

A Pluri também aponta em um outro estudo disposto em seu site que VIOLÊNCIA, PREÇOS DE INGRESSOS, QUALIDADE DOS ESTÁDIOS e OFERTAS DE PPV são os principais fatores denunciados como razão do absenteísmo nos estádios de futebol. Em outras palavras, situações relacionadas a comodidade. O sujeito não quer sofrer e aí fica em casa. Não quer se incomodar.

Ora, convenhamos, se considerarmos cada item, percebemos que a disposição para se assistir a um jogo requer estar longe de qualquer perrengue. Evidentemente que todos nós, humanos, queremos nos afastar das dificuldades. É a lei do menor esforço. Porém, se classificam fatores limitantes apenas no futebol, é o que parece.

Se falarmos que a VIOLÊNCIA nos inibe de ir a um estádio, então devemos não mais sair de casa nem para trabalhar. Isso não é apelo à banalização da violência, mas considerando que ela está em todos os lugares. Estamos sujeitos a balas perdidas dentro de casa. Pessoas podem nos agredir na pracinha do bairro. Corremos o risco de sermos assaltados dentro de um ônibus. Ou seja, a violência não está somente nos estádios, mas faz parte, infelizmente, do cotidiano das pessoas. Isso é algo relevante à impunidade presente em nossa legislação e à incompetência do poder público e não especificamente ao futebol.

Os PREÇOS DOS INGRESSOS, por sua vez, aumentam exatamente porque os clubes precisam se financiar e apostam que seu torcedor seja, acima de tudo, parceiro comercial também. Redes de TV e empresas patrocinadoras exploram o produto futebol e os clubes, mas não pagam o suficiente para que o clube exponha a sua marca. E os torcedores brasileiros possuem uma característica peculiar, que é exigir muito e pagar pouco por isso. Querem grandes times e jogadores top de linha, mas não querem pagar a conta junto com os seus clubes. Dizem, ainda, que o futebol é do povo. Sim, era do povo aquele futebol jogado no campinho da rua, onde íamos descalço e sem camisa e não precisávamos pagar por nada. O futebol profissional é diferente. Este exige investimentos e um retorno de seus torcedores.

A QUALIDADE DOS ESTÁDIOS e os PACOTES DE PPV refletem a condição de comodidade do torcedor. Refestelado em sua sala ele grita e esbraveja contra tudo e contra todos, talvez sem saber, ingenuamente, que não será ouvido e muito menos o jogador saberá o que ele quer.

Ninguém, por outro lado, quer sujeira e porquindade nos estádios, evidentemente, mas se o futebol é do povo, se as cadeiras em arquibancadas inibem a festa das torcidas, se há quem não se importe que haja banheiros limpos, uma vez que ele faz xixi ali no cantinho do muro, se joga papel no chão e derrama o refrigerante por sobre outros, se contemporiza a violência das organizadas, se chega bêbado ao estádio, se anda sobre cadeiras com os pés sujos, se estaciona em local proibido e chuta o alambrado querendo invadir quando inconformado, reclama do que este infeliz? Na imensa maioria das vezes não temos torcedores tão educados assim que mereçam uma sala acarpetada, e uma boa laje de cimento já está de bom tamanho.

Há também as outras opções de lazer apontadas como razão da ausência do torcedor, como cinemateatro e praia, e que não possuem a emoção do futebol, a pouca importância de alguns jogos, como se os times jogassem apenas decisões, climahorárioacesso e outras coisas que, se para alguns torcedores é contornável, para outros são desculpas de quem não quer admitir que tem preguiça.

O assunto é longo e requer uma boa discussão, mas a principal delas deve começar pelo comprometimento também do torcedor de futebol. Há muita gente querendo demais dos clubes, mas a sua parte no apoio e no esforço para ajudar no crescimento do próprio clube inexiste.

As desculpas, portanto, não colam. Não há perdão.

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