A verdade que dói

O Sr. Roberto Costa, no blog do André Tarnowsky, colocou uma série de afirmações a meu respeito, dando conta que eu sou alérgico a torcedores devido às manifestações que faço sobre eles. O fato é que, bem contadinho, estou mexendo com alguns valores estabelecidos e isso incomoda.

Na verdade, faço observações, algumas vezes reconhecidamente incisivas, a diversas posturas de quem freqüenta estádios ou tem algum time para chamar de seu. Dentre elas, as afirmações categóricas imputando verdades que se dizem absolutas. Na imensa maioria das vezes, o torcedor, seja de qualquer agremiação, impõem conceitos baseados na lógica do senso comum. No ouviu dizer ou soube por outros.

Não quero ensinar ninguém a torcer, mas, em outras palavras, o torcedor repercute fofocas. E é em cima disso a minha crítica. E embora não seja, eu mesmo, o dono da verdade, e posso também cair em contradições, pois erro como qualquer um, me acho no direito de contestar tais verdades. Por que não? A liberdade de expressão está aí exatamente para isso, para que as pessoas possam dizer o que pensam. Cada qual tem o direito a dizer o que quiser e eu tenho o de contestar. E aqueles contestados por mim que sejam adultos o suficiente para defender de maneira inteligente suas proposições. Do contrário, devolverei sem nenhuma cerimônia na mesma moeda. É assim que funciona esse troço de se dizer o que se quer. Às vezes vão ouvir o que não querem.

A bronca dessa gente, evidentemente, é que não aceitam quem lhes contrarie essa suposta razão, porque acham que têm a sua razão. Daí a briga. Daí a história de que digo amém ao presidente. Daí a de que tenho o rabo preso. Daí a afirmação de que receboum por fora para ter os meus espaços de opinião. Ou seja, estou mexendo com posturas de torcedor e o torcedor me devolve o insulto. Típico e natural, vindo de quem vem.

Na grande e imensa maioria das vezes, observar o mundo ao redor nos faz emitir opiniões. O mundo dos humanos é assim desde que descemos das árvores e passamos a definir as coisas da vida em nossas vizinhanças. Ora, ocorre que a diferença entre opinião e verdade absoluta está na possibilidade do debate e em apontar a dúvida. E é isso que não vemos entre torcedores de futebol, a chance da contestação e do contraponto. Da dúvida.

Torcedor de futebol é aquele tipo de humano que traz em seu íntimo apenas uma coisa óbvia: ver seu time vencer. Nessa disposição, a razão passa ao largo, porque o seu íntimo está sobrecarregado de sentimentos, anseios e emoções. A expectativa criada é de que sempre haja uma vitória. Qualquer outro resultado, dependendo das circunstâncias, gera frustração. Promove uma cara feia e que pode ter repercussões as mais diversas. Ao longo do tempo, contudo, com sucessivas frustrações e derrotas, as verdades absolutas, que não admitem contrariedades, vão se estabelecendo, uma vez que o emocional sobrepõe a razão.

O absolutismo então gerado vai desde interpretações de comportamentos dos jogadores a ofensas e desacatos a todos os envolvidos. Tudo vale para desaguar as mágoas pelas derrotas:

– Esse jogador é cachaceiro.

– Aquele outro tem contrato com empresários mal intencionados.

– Esse técnico tem os seus preferidos.

– O diretor fulano impôs a escalação daquele jogador.

– O jogador tal não quer jogar e deu um migué pra ir pro DM.

– Esse time tem muito negão.

– O filho do presidente é mafioso e montou uma empresa para vender os meninos da base.

– Eles não querem jogar porque estão com os salários atrasados.

Sei lá, levantei algumas coisas que se ouve nas arquibancadas, dentre várias, inúmeras, disparadas por quem acha que detém a verdade. Há uma mais curiosa que é mais ou menos assim:

– Eu sei de fonte segura esta situação, mas não vou revelar por respeito a quem me deu a informação.

E esta é fabulosa:

– O primo da mãe do meu amigo me disse que…

– O conselheiro tal me confidenciou…

Sempre tem alguém que disse, mas que ninguém sabe quem é. E neste arrazoado diversas coisas surgem desde descer o pau em que não se gosta até revelar coisas obscuras e tenebrosas, que só o dono daquela verdade conhece. Curioso é que muita gente pede transparência, mas sequer menciona o endereço da fonte, muito menos seus nomes. Não é engraçado isso?

Além dos torcedores das verdades absolutas e que existem em qualquer time de futebol, há também uma outra categoria que me odeia, a de torcedores modinhas, que são aqueles que só aparecem na boa. São os que só vão ao estádio em dia de grandes jogos. Estes também me jogam pedras, porque eles não admitem ser contestados em seu modismo, não aceitam ser cutucados. Acham que têm razão, e não admitem quem critique o ponto de vista de seu interesse.

Existem, ainda, os torcedores políticos. Geralmente são ligados a alguma facção contrária à administração do momento em seu clube e vivem conchavando e articulando planos para desestabilizar quem está no comando. Será usado qualquer argumento para deixar dúvidas nos atos da direção do clube. Qualquer um. São os caras das assembléias gerais, os que querem mudar estatuto a todo momento, os que querem atendimento especial na secretaria, os que fazem análises de custos de palito e xepa de cigarro, os que querem aquele salgadinho especiais nos camarotes, os que querem saídas especiais para cadeirantes, enfim, os sabe-tudo e possuidores de fórmulas prontas. Esses, aqui no Avaí, que são uma meia dúzia, mas que incomodam barbaridade, são em sua maioria frustrados, porque grande parte de suas atribuições dependem de interesses familiares ou de pendrives mal resolvidos. E aí, quando se precisa realmente de suas ações, eles inventam desculpas e correm da função, que é para não deixarem suas incompetências aflorarem. Há sempre um porém.

Então é por essa razão que pessoas bem antenadas como o Sr. Roberto Costa se preocupam com o que eu digo, ao invés de tentar entender o complexo da coisa toda. Outras pessoas, por exemplo, sem capacidade de argumentação, preferem me atacar, quando o mais sensato seria abrir um debate.

Mas como eu me importo com os meus, com as pessoas que estão ao meu lado, com aqueles que realmente querem abrir a mente para o debate e não para futricas, estas manifestações de apreço e admiração à minha pessoa são apenas risíveis. Sequer movem meus parcos cabelos.

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