Num canto verde do coração

Confesso que não tenho ânimo para escrever coisas sobre futebol e muito menos ter encontrado coragem para escrever algo sobre esta tragédia da Chapecoense. A cada momento que ponho os dedos no teclado uma lágrima corre, um nó na garganta não desce e a respiração fica alterada. Aí largo e vou me recompor. A frase “um sonho foi interrompido” é a que bate frequentemente na consciência. E a cada notícia, a cada depoimento, a cada homenagem, a cada reflexão, uma angustia, uma tristeza e uma agonia me arrebata.

Eu aprendi a gostar da Chape quando comecei a admirar a gestão deles, lá em 2013. Era dezembro daquele ano, estava em Modelo, uma cidadezinha simpática próxima a Chapecó e estávamos num evento festivo da cidade. Numa mesa onde nos sentamos, chegou casualmente um dirigente da Chapecoense e mais alguns torcedores deles. Eu estava com a camisa do Avaí, começamos a conversar sobre futebol, eles haviam acabado de subir para a Série A do brasileirão e fiz a pergunta natural: “ vocês vão até onde? Acham que a Chape cai no próximo ano?” O dirigente me olhou seriamente e respondeu, no ato: “mas, para, de forma alguma. Vamos ficar por um bom tempo na Série A. Pode escrever isso aí!”. Não desdenhei, é claro, porque minha educação não permite isso, mas meu ceticismo bateu.

Porém, depois de digerir aquilo por outros dias, acabei admitindo que ele falava muito sério.

Apesar de aquela afirmação parecer pretensiosa demais para um clube de futebol pequeno e humilde, os resultados mostraram que ele estava certo. A gestão responsável, o empenho, a dedicação e o carinho com que eles trataram de futebol nestes últimos anos deu-me a certeza do que eles queriam. E que não era pouco.

Há quem diga, obviamente movido por aquele sentimento de torcedor de arquibancada e que diz saber mais de futebol que os demais, aqueles, é claro, que torcem para os clubes rivais da Chapecoense, que eles são ajudados pela prefeitura, que a Arena Condá é municipal e que empresários põem dinheiro para eles poderem crescer. E eu fico pensando que este sentimento é pura dor de cotovelo e nem vou discutir isso. É coisa de torcedor de arquibancada mesmo.

A Chapecoense foi crescendo e se mantendo. Fazendo tudo como deve no campo da gestão e tudo o que é permitido no campo de futebol. Eles foram tomando espaço e obtendo posições. Na vida e na bola. Em Santa Catarina, deixou de ser um singelo participante do estadual e passou a protagonista. No cenário nacional, de um time humilde de um Estado periférico, virou admiração e case de administração esportiva.

E o resultado, para aqueles que trabalham sério e com dedicação, naturalmente é o topo. O anonimato é deixado para os preguiçosos e oportunistas, mas a glória sempre será dada àqueles que a merecem. Foi o que houve com a Chapecoense. Chegou à glória e ao estrelato. Virou protagonista. Virou a queridinha do Brasil. Poderia ser campeã das Américas. Mas…

Ocorre que o acidente interrompeu os sonhos. Vidas jovens, esperançosas e desafiadoras se foram. Projetos e metas terminaram ali, naquele morro próximo a Medellín. Uma gota a mais de combustível, uma gananciazinha a menos e a história seria outra. A carreira de jogadores, de jornalistas, de dirigentes, de funcionários da empresa de aviação se encerrou numa noite fatal.

A dor da perda ainda pulsa e machuca.

Entretanto, a queridinha do Brasil, a protagonista da sulamericana, a cobiçada em gestão esportiva, aquela que poderia ser campeã das Américas desmanchou-se numa fatalidade e renasceu como heroína. No palco das ilusões que é o futebol, a Chapecoense, seus jogadores e aficionados brilham agora como atores principais. São reverenciados, são exaltados, são amados por todos os que gostam de futebol e por aqueles que apreciam uma carreira de sucesso. Engana-se quem pense que seja por pena. É por respeito.

A Chapecoense queria conquistar a América jogando seu futebol e concluído seus objetivos. Passou a ser o segundo time do resto do Planeta e fincou um lugar verde no coração daqueles que amam a vida.

Num boteco próximo da Ressacada

– Rapaz, fiquei sabendo agora que surgiu um novo presidente na Ressacada. Mais moço, moderno, renovado, com ideias novas e atuais para elevar o nosso Avaí Futebol Clube a um patamar, no mínimo, digno. O novo presidente está “afinzaço” de resolver todos os problemas, estabelecer parcerias consistentes e disposto a montar um time competitivo e campeão. Creio que, a partir de agora, os vexames pelos quais passamos nos últimos anos poderão ser esquecidos e uma nova…

– Ei, espera aí!

– O que é? Não me interrompe.

– O “novo” presidente é o Battistoti.

– Hein? Como é? O Battistoti? Aquele Battistoti?

– Sim, é ele.

– Mas.. mas..

– Não tem mas, mas. É ele mesmo.

– Mas, e aquele discurso. A tal da renovação, choque de gestão, time novo…?

– Sim, ele falou tudo isso.

– Mas ele era o vice do inepto.

– Pois é.

– E aqueles meninos que se reuniram pra resolver tudo, os tais notáveis?

– Não se fala mais nisso.

– Ah, tá, entendi, então é um discurso pra enganar trouxas, ou pra dizer que vamos pra série C?

– Exatamente.

– E o pessoal da oposição, o que fala?

– Estão dizendo que não tinham nada a ver com o Nilton e que agora vai.

– E daquela reunião antes da eleição, nada?

– Nada.

– É, então toca, né.

– Preferes Serramalte ou Bavaria Premium?

– A que arder menos.

A saída dos que não entraram

Está para cair da boca, igual a dente cariado, a administração Nilton Machado do Avaí. Até este momento, dá-se conta que é questão de tempo. Hoje, amanhã, daqui a pouco, mas não demora muito. Encerra-se, assim, de forma melancólica, numa crise sem precedentes na história do clube do Sul da Ilha, uma administração que poderia dar seguimento aos bons momentos vividos no tempo do Zunino, e não o fez.

Sabe-se que muita gente está festejando isso. Há vários oportunistas fazendo festas em decorrência deste momento, muitos deles os derrotados da última eleição. Aliás, no Brasil, ao que parece, perder uma eleição reflete um ódio mordaz e murrinha para quem vence. Como se o respeito à democracia fosse igual a cerveja que acaba no copo. Volta lá e enche de novo!

Confesso que não lamento a saída no Nilton. Uma administração ineficiente e ineficaz não teria como terminar de outra forma. O que lamento é termos chegado a isso. É encerramos uma administração que nunca sentou na cadeira que lhe era devida. Torna-se terrível ter que comemorar a saída do que não deu certo, ao invés de se exultar as conquistas do que poderiam ter havido. É o nosso Avaí, com todas as glórias e tradições, ter chegado a esse ponto, com total falta de respeito vindo de todos os lados, se ninguém sabe. Eu não festejo isso.

Muitos apontam como os resultados em campo as razões para o encerramento das atividades do Nilton. Até ajuda, mas não é apenas isso. As derrotas em jogo são das coisas do futebol. Não foram estas as razões principais, portanto, para que tudo acabasse assim. Foram as derrotas morais, contudo, a falta de brio, garra, denodo e empenho de seus dirigentes. Não vestiram a camisa, como muitos querem que os jogadores façam. e os jogadores acabaram se tornando o reflexo disso tudo.

Foi a permissividade das topadas administrativas, uma atrás da outra, sem descanso, e deixando a nação avaiana de cabeça baixa. Envergonhando nossas tradições. Enlameando nossa existência. E como avaiano de carteirinha lamento profundamente tudo o que está acontecendo. Não vou na onda “dos males o menor”.

De minha parte, não faço coro com quem acha que haverá mudanças após esta saída. Lamento informar, mas será trocado seis por meia dúzia. Não haverá mudanças significativas! Pode haver um gás aqui, outro ali, mas no geral ficará igual. Há coisas mais profundas que precisam ser mexidas no clube e não serão as trocas por nomes que se resolverá. A ruptura necessária não vai ocorrer.

A formatação administrativa é que está equivocada, pois estamos a depender de um mecenas, de alguém que tenha o cofre aberto, para voltar a financiar o clube, uma vez que os investidores externos correram daqui como o diabo da água benta. Curioso era que o Zunino fazia isso, virou o patrocinador máster por muitos anos, e todos estes sabichões que o execravam agora acham que pode dar certo assim.

Mas esperamos, ainda assim, um alento. Que os horizontes do maior de Santa Catarina se abram. E que voltemos a nos orgulhar do futebol ganhado no campo, como sempre foi nossa tradição.

Pintura nova em parede velha

Não queria ter que voltar mais ao assunto “Avaí” na minha vida. Minha elasticidade sacal atingiu índices astronômicos. Após a contratação do pastor dos tijolinhos, mesmo, a coisa degringolou de vez. Todavia, não poderia deixar de comentar sobre esta sanha desenfreada de se retirar a diretoria executiva do clube como se fosse a solução de nossas mazelas.

Antes, preciso dizer, tão logo os medíocres contestem, aqueles que olham as árvores mas não observam a floresta, que não estou defendendo o cargo do presidente do clube. Embora tenha feito campanha para sua eleição, foi uma decepção atrás da outra e uma coleção de vexames proporcionada pelo clube sob sua administração (???). Não deveria ter assumido, se fosse para fazer todo este papelão. Está conseguindo diminuir sua biografia, a qual, sabe-se muito bem, é das mais brilhantes na área em que atua. E nem se faz considerações sobre sua honestidade ou índole. Amigos próximos me garantem que é uma sujeito do bem, boa praça, amigo de todas as horas, de inteligência acima da média e francamente acessível ao diálogo. Eu acredito nisso. Mas, demonstrou que, como presidente de clube, sobejamente não tem o traquejo necessário para administrar e deve sair mesmo.

A minha indagação é: sim, e aí, e depois que ele sair? O que se faz? O que vem após isso?

Pelo que vejo, e do pouco que acompanho, vamos tirar alguém que não quer pôr dinheiro para outro que quer, não é isso.

A administração Zunino, embora uns poucos contestem, aqueles que quando estiveram à frente pouco fizeram e depois contestaram por vingancinha e inveja, conseguiu transformar uma instituição arcaica e amadora num clube de futebol. Tivemos avanços na estrutura administrativa. Crescemos como marca e projetamos nossa existência. Mas, houve erros. Muitos erros. Vários erros. O que, dados os desgostos e se considerando que um erro resulta em derrota, sendo que no futebol isso é multiplicado à casa das dezenas, foram relevantes. Portanto, quando da entrada do presidente Nilton, se esperava que estes erros fosse corrigidos e os acertos fossem ampliados, coisa que não ocorreu, ou melhor, foi feito exatamente ao contrário. Por isso, a fase ruim. Por isso, o quadro catastrófico que se configura, e que pode ficar bem pior. Portanto, a saída dele é necessária, sim.

Mas para que entre alguém e refaça os investimentos?

O Avaí sofre de um problema que é sistêmico. Precisa haver um reformulação muito profunda, mudar muita coisa internamente. O modelo do Avaí depende de um mecenas, de um abnegado que venda a família e ponha dinheiro lá dentro e financie seu futebol. Isso foi muito em implantado pelo Zunino, mas está ultrapassado. Não resolve mais. Foi importante naquele momento de construção, mas não agora na manutenção. O buraco é muito profundo para se usar o dinheiro de maneira a tapar o rombo. Essa é a razão da necessidade de mudar o modelo de gestão.

Ao assumir, o atual presidente deixou bem claro que não poria dinheiro do bolso no clube. Ótimo! Uma boa perspectiva estava no horizonte. Ocorre que nem pôs dinheiro e nem facilitou a entrada de dinheiro externo. E não adianta se dizer que houve correntes contrárias. O mandatário era ele. Quem assinava era ele. Quem deveria bater o martelo era ele. E é exatamente aí que reside sua inépcia.

Mas, então, corre pelos arredores da Ressacada o rumor de que ele está para sair. E ainda anda nas redes sociais um documento para coletar assinaturas insuflando sua saída. E depois vai haver uma limpa lá dentro. Que limpa? É assim que se resolve um problema administrativo? Obviamente que alguém está abusando de nossa inteligência, porque, o que muda depois disso? A retirada de seu retrato da parede? Agora vai entrar dinheiro? E até quando? Isso acaba um dia.

Depois disso vamos pra serie D, ou quem sabe a gente crie a Série E, para nosso deleite. Pode aguardar.

O Avaí precisa, isto sim, de uma cobertura de concreto, sólida e resistente. Se o nosso telhado é de vidro, ficar remendando o vidro a cada gestão é que não dá mais. Nossa parede está velha e desgastada, mas algumas virgens vestais acham que basta dar uma nova pintura que tá tudo certo. Se alguém acha que isto é solução seja feita à vontade. Nos vemos no rebaixamento.

Porquê não quero Silas no Avaí

Sabemos que o futebol é uma atividade que remonta eventos de puro delírio e paixão. É uma das poucas práticas da humanidade onde ainda se pode sonhar, mesmo que por trás dos bastidores sejam montados planos de fazer corar o capeta. Por essa razão, talvez esta seja uma de minhas últimas postagens em relação ao Avaí, porque meus sonhos estão se esvaindo. Pode ser que ainda escreva uma coisinha ou outra, mas é cada vez mais difícil encontrar disposição pra dizer algo sobre meu clube. E sobre o time que joga, então, são menores ainda os motivos. A gota d’água foi essa contratação do técnico Silas. E isso não é de hoje, não é coisa de momento, pois já escrevi sobre isso e rememoro coerentemente as coisas: há tempos que não topo a figura deste treinador.

Todos têm a exata noção de que grande parte da torcida avaiana foi sua fã. Todavia, outra parte é composta de viúvas inveteradas e os que vão ao estádio preferem que o Avaí não faça aventuras desnecessárias. Por outro lado, a diretoria não aprendeu com os erros do passado e nem com os seus próprios e continua a afastar mais ainda seus torcedores. Esta contatratação, por exemplo, é um tapa na cara de quem está ali para dar apoio ao clube. Eu, de minha parte, larguei minha carteirinha na gaveta. Não dá mais! Não conseguiria torcer para um time tendo este infeliz no banco de reservas.

É importante dizer que Silas foi um dos técnicos mais vitoriosos da história do Leão da Ilha, em todos os tempos. Obteve, junto com os jogadores e com apoio da diretoria, e com a torcida em peso na Ressacada a aplaudir, nos anos de 2008 e 2009, feitos memoráveis, que já vão longe e estão impregnados em nossas retinas, e nos fazem lembrar de momentos mágicos vividos em sua passagem por aqui. Naqueles dias, Silas fez sonhos se tornarem realidade, manteve um diálogo sempre aberto com a torcida, bateu de frente com um de nossos maiores calos, a mídia da Capital, e mostrou para o pessoal doladelá quem manda em nosso futebol. Fez de tudo, fez até chover. Todos já sabem! Aquele Silas ninguém esquece.

Mas o mundo da pelota quicando na grama não permite manutenção de água parada na poça por muito tempo. E este Silas, o homem do bonequinho, o que brigou com o outro homem do bonequinho em nome da nação avaiana, foi picado pela mosca azul dos negócios. Silas teve que sair do Avaí, pois seus interesses já entravam em conflito com os do clube. E os interesses do clube, na minha avaliação, devem ser preservados acima de tudo. Dane-se, sou romântico mesmo. Que me desculpem os incautos, mas eu sou primeiro o Avaí, independente do que seja. Eu defendo as cores do meu clube, salvo se alguma coisa muito fora da ética for mantida, o que não foi o caso. E Silas saiu, pois o Avaí também não podia fazer aventuras tresloucadas. Mas, saiu pela porta da frente.

Numa despedida rara e épica na história do futebol mundial, abraçando a todos os torcedores e dando aquela emocionante volta olímpica na Ressacada, no último jogo da temporada de 2009, pelo brasileirão, ele deixou uma marca indelével no seio da nação do Sul da Ilha. E foi abraçado, em retribuição, pela gente avaiana. Foi algo realmente emocionante, como poucas vezes se havia visto em qualquer parte do futebol jogado por aí. As frases de “obrigado!” ecoaram por todos os cantos e as lágrimas correram em faces sorridentes.

Foi um dos momentos mais bonitos presenciados por esse torcedor apaixonado que é o avaiano. Torcedor amigo, bonachão, fiel, que sabe reverenciar a quem merece. Aquele que vai ao estádio, claro. Criou-se uma necessidade de perpetuar sua passagem pelo Avaí. Surgiram faixas, bonequinhos, camisetas, tudo para manter na memória e em nossos corações a presença daquele grande comandante. E em nossa inocência, dizíamos: Silas já é um avaiano, pô!

Até que num belo dia, treinando outro clube, tomado pelas vicissitudes do futebol e demonstrando a sua virgindade como treinador, resolveu comparar paixões entre o Avaí que o idolatrava e o time da torcida que o odiava. Silas preferiu os negócios ao caráter. Mostrou que tinha duas caras. Ou melhor, não tinha cara alguma. A gente, na vida, tem cuidados ao acabar com mitos e ele fez isso por conta própria em segundos. Silas decretou o seu divórcio com a Ressacada de forma litigiosa. E depois foi uma sucessão de malandragens e trairagens, todas dignas de alguém não confiável. Um mau perdedor. Ou seria um grande mercador?

Nenhum torcedor avaiano, por mais bobo que seja, se incomodaria pelo fato de Silas ter ido treinar outro clube. É do futebol, poxa! Mas nenhum humano, por mais tolo que seja, suporta ser tripudiado ou traído. Sem essa de que o tempo é o senhor da razão. Aquilo foi uma facada com lâmina enferrujada. De minha parte, nunca fui de fazer birra adolescente, mas um pouco de amor próprio e auto-estima é bom pra mantermos a dignidade, se é o que nos resta alguma nessa fase escura pela qual passamos. Pois, naquele momento, Silas nos traiu profundamente.

Depois, houve uma segunda vinda. Veio com o mesmo discurso messiânico, com o mesmo empenho, conseguiu algumas boas vitórias, tivemos bons momentos de alegria, mas faltava alguma coisa. A sensação era de frieza. Houve vaias. Chamaram-no de burro em algumas oportunidades. Aquilo não estava bom. E sua segunda passagem foi visitinha de médico. Rapidinha de coelho! Saiu outra vez, só que agora com um aceno sem lenços brancos.

Silas estava sendo chamado pela terceira vez, agora para tirar o time da lama. Estava à nossa porta. Alguns torcedores pareciam desesperados por sua volta apoteótica. Se fui seu crítico, quando de sua segunda passagem por aqui e fiquei com um pé atrás, imaginava que se poderia passar uma borracha sobre tudo aquilo. Afinal, pra que rancor nessa vida tão curta? E mais uma vez nos tratou como um coisa insignificante, um trocinho de brincar. Ele, ou o seu empresário, quiseram ser mais realistas do que o rei e a coisa não deu certo. Pelo menos, este foi o discurso.

E agora, neste momento, quando ninguém mais o queria no âmbito do futebol, ele pousa mais uma vez na Ressacada justamente numa fase mais ainda ruim, tentando reviver coisas que só pertencem ao mundo da magia. O mundo da realidade não nos permite mais sonhar. A nossa fase é ruim. Terrível! Não vejo como poderemos sair disso assim tão fácil, a não ser que esse grupo de jogadores queira. Duas ou três vitórias seguidas curam todas as mágoas. Contudo, particularmente, que nunca fui de jogar a toalha por isso, porque não sou de fugir da briga tão fácil, também não acredito mais nessa fórmula embriagadora. Conheço o futebol desde criança e isso já faz tempo. Com Silas no comando, portanto, não dá mais. A água bateu no tampo de minha cabeça.

Se sou torcedor de futebol, daqueles que deixa a razão em casa quando me sento na arquibancada, minha natureza não admite que me façam de bobo seguidas vezes e ainda assim aplauda como um boneco de posto. Não fará a menor diferença minha ida ou ausência do estádio. Mas para a história do clube, recontratar este sujeito é de uma humilhação enorme e é nos rebaixarmos e apequenarmos ainda mais. Tô fora!

O Velho Avaí

De goleada em goleada o time do Sul da Ilha vai colecionando seus vexames habituais no campeonato. Ou nos campeonatos. Sei lá! Já não se sabe mais qual campeonato que, ultimamente, o Avaí tem jogado e se dado mal.

Um time que teria tudo para dar errado numa fase cascuda da competição, quando todos entram travados, nos deu alegria e muito orgulho. Quando vimos jovens jogando como marmanjos, achávamos que a solução havia sido encontrada. “É isso aí, tem que apostar na base”, dizia-se. E constatamos que um técnico, estudioso e promissor, teria encontrado a maneira exata para superar crises com um esquema tático simples, mas eficiente.

Além do mais, jogavam com raça e determinação, coisa que havia sido dispensada nos últimos anos da Ressacada. Era o velho Avaí a nos dar dignidade nestes tempos bicudos, pensávamos.

Mas aí, virou-se a roda do turno e tudo mudou.

O time que teria tudo pra dar certo numa fase decisiva da competição, pois já se tornava a sensação do campeonato, começou a demonstrar fraquezas que não havíamos visto. Ou havíamos ignorado. Ou fingimos que não existia.

Vimos marmanjos amarelando como meninos e a solução para nossos problemas acabaram ficando cada vez mais distantes. A crise que era um fantasma, reencarnou num zumbi claudicante.

O bom e jovem técnico adotou erros dos veteranos e pareceu ter esquecido tudo o que estudou. Passou a usar um esquema tático ultrapassado e adotou tapa-olhos à beira do gramado, incapaz de observar o óbvio.

A garra e a determinação viraram preguiça e inércia e as disputas vão sendo levadas de rodo em direção a um precipício já nosso companheiro de outrora.

O velho Avaí dos últimos tempos voltou a nos deixar com uma pulga atrás da orelha, de que temos ainda muita maré para remar e muito chão a correr.

A jornada dita pelo velho William não vai ser apenas longa, será indigesta, dificílima e cheia de buracos. Iguais ao da zaga mexida e revirada desnecessariamente pelo treinador.

E aí, faço o mea culpa: dizia que os problemas anteriores eram Chico Lins e Arini, que não davam conta dos vestiários.

Conversa!

As cozas que o Avaí deixa de fazer já viraram hábito. É o velho Avaí de sempre.

A pelada da base

O time do Avaí saiu de casa neste domingo à tarde, alugou duas Kombis, encheu de jogadores e foram jogar uma peladinha lá em Jaraguá do Sul. Sim, fez igual ao que nós, peladeiros de fim de semana, fazemos: reunimos a turma e vamos bater uma bolinha num canto qualquer. Apenas para passar o domingo. Sem compromisso, sem esforço, sem consideração com o nome da turma. Apenas para se divertir. Só faltou a carninha e a loira gelada no fim da partida. Eu acho que faltou.

Porque só assim para a gente, que tanto elogiou este time, composto em sua maioria por rapazes recém saídos de uma base forte, avaliar esta traulitada ocorrida nesta tarde de domingo contra o Metropolitano. Antes, preciso dizer, imensas vezes, que não faço coro com os oportunistas e malucos que, a cada rodada de avanços se escondem e a cada desastre pedem a cabeça de jogador, execram os uniformes, querem mandar o treinador embora, querem fechar a Ressacada e escrever em caixa alta nas redes sociais. Talvez para parecer mais macho que os outros e viver fazendo justiça com as próprias mãos.

Não, não sigo estes e me afasto dessa insanidade sem remorso algum. Mas é preciso, sim, dar alguns puxões de orelha em muito neguinho bom.

Todo mundo sabia, de cabo a rabo, do topete ao dedão do pé, que este ano seria terrível para o Avaí. Não havia qualquer possibilidade de sucesso. Todos dizíamos e já íamos contar com as bordas do poço. Ocorre que, para surpresa até dos adversários, o time de rapazes sub-23 jogou bola. Encheu os olhos. Mostrou futebol e não enganou ninguém como, oportunisticamente, já se atesta por aí. Houve algo bom ali, sim, e que nos deu muito orgulho.

Todavia, para que um trabalho numa competição tenha êxito e sucesso, mesmo que não se almeje título, é preciso haver continuidade. Mesmo que se considere que é necessário haver apostas e se testar alguns novos nomes. Entretanto, a experiência nos diz que deve haver parcimônia e bom senso. O êxito requer, junto com as ousadias, responsabilidade e concentração. E levar as coisas a sério.

Como se queria, o grupo ousou, sim, mas de forma atabalhoada. A irresponsabilidade do bom treinador Raul Cabral, de desmontar o meio de campo, decretou um desastre fatal neste jogo. A falta de cobertura e de jogadas pelo meio só não foi pior (e perder de quatro já não é nenhum refresco), porque o Metropolitano não é lá essas coisas. Tomamos 3 a 0 num primeiro tempo horrível, fora o baile. Poderia ser um tragédia oceânica. Poderíamos ser humilhados pela tansice do treinador, que resolveu abusar da sorte. Sobrou soberba e faltou tranquilidade, talvez até um pouco de malandragem. Depois, culpar a gurizada pelo mau desempenho é molinho, molinho.

Creio que é o momento de analisar e ajustar as coisas. Pensar que agora não somos mais a surpresa. Que a segunda colocação conquistada na raça avaiana no primeiro turno precisa voltar em forma de dignidade. Não exigimos nem o título, mas que se saiba da importância de um time do Avaí em campo. Ao menos sujem os calções. Dirão alguns que a culpa é apenas da diretoria e blábláblá. Sim, eu sei. Mas quem põe o pé na bola, mesmo que erre, é o jogador. E o treinador, de fora, está ali para observar os problemas e corrigi-los a tempo. Se não consegue, saia e dê lugar para outro, porque a bola pune os lesos.

Até porque, se for para jogar peladinha de domingo à tarde, pelo menos convidem a gente, que levamos calção, meião e camiseta. E ajudamos a assar a carne. Assistir isso aí de fora, sem poder participar, é que é terrível.

Portanto, levantem a cabeça e bola pra frente, porque a coisa só está começando.